Em palestra transmitida nos canais da Associação Espírita Fé e Caridade em 15 de fevereiro de 2021, o palestrante Nilson Cesar Góes inicia sua exposição lembrando a necessidade em multiplicarmos em voz alta as mensagens de Jesus, que nos consola e auxilia a construir verdadeiros alicerces para podermos enfrentar esses momentos graves com equilíbrio. Tenhamos a certeza de que tudo passa, e haveremos de ter um amanhã, embora não saibamos quando será, momentos diferentes das tormentas que hoje experimentamos.

Como exemplo apropriado para nossas reflexões, Nilson nos traz a passagem evangélica sobre a mulher pega em adultério. A passagem está no capítulo 8 do Evangelho de João.

Então os escribas e os fariseus lhe trouxeram uma mulher que fora apanhada em adultério e a puseram no meio,

Dizendo-lhe: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério.

Moisés na lei mandou-nos apedrejá-las. E tu, que dizes?

Os judeus diziam isto provocando-o, para terem do que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, começou a escrever com o dedo na terra.

 Como eles perseveravam em fazer-lhe perguntas, ergueu-se e disse-lhes: Quem dentre vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra.

 E, tornando a inclinar-se, voltou a escrever na terra.

 Mas eles ouvindo-o, foram saindo um a um, sendo os mais velhos os primeiros; ficando só Jesus e a mulher que estava no meio em pé.

Ergueu-se Jesus, e assim lhe disse: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Então disse Jesus: Nem eu tampouco te condenarei; vai e não peques mais. — Bíblia do Caminho, Testamento Redentor.

Essa lição de Jesus traduz a máxima da indulgência. Somos espíritos em desenvolvimento, portanto passíveis de erros. Ensina o Mestre que as pessoas devem evitar o julgamento e, mais ainda, que devem julgar os outros com a mesma severidade com que gostariam de ser julgadas.

O que às vezes acontece é sermos benevolentes para com os nossos erros e severos para com os erros alheios. Muitas vezes nos precipitamos ou nos equivocamos no julgamento do próximo. Nessa situação, Jesus situa como hipócritas os que não enxergam lascas de madeira em seus olhos e se preocupam com meros ciscos em olhos alheios.

No Livro Contos e Apólogos, na lição 14, Irmão X nos traz ensinamentos preciosos a esse respeito.

Finda a cena brutal, em que o povo pretendia lapidar a mulher infeliz, na praça pública, Pedro, que seguia o Senhor, de perto, interpelou-o, zelosamente:

— Mestre, desculpando os erros das mulheres que fogem ao ministério do lar, não estaremos oferecendo apoio à devassidão? Abrir os braços no espetáculo deprimente que acabamos de ver não será proteger o pecado?

Jesus meditou, meditou… e respondeu:

— Simão, seremos sempre julgados pela medida com que julgarmos os nossos semelhantes.

— Sim — clamou o apóstolo, irritado —, compreendo a caridade que nos deve afastar dos juízos errôneos, mas porventura conseguiremos viver sem discernir? Uma pecadora, trazida ao apedrejamento, não perturbará a tranquilidade das famílias? Não representará um quadro de lama para as crianças e para os jovens? Não será uma excitação à prática do mal?

 Ante as duras interrogações, o Messias observou, sereno:

— Quem poderá examinar agora o acontecimento, em toda a extensão dele? Sabemos, acaso, quantas lágrimas terá vertido essa desventurada mulher até à queda fatal no grande infortúnio? Quem terá dado a esse pobre coração feminino o primeiro impulso para o despenhadeiro? E quem sabe, Pedro, essa desditosa irmã terá sido arrastada à loucura, atendendo a desesperadoras necessidades?

 O discípulo, contudo, no propósito de exalçar a justiça, acrescentou:

— De qualquer modo, a corrigenda é inadiável imperativo. Se ela nos merece compaixão e bondade, há então, noutros setores, o culpado ou os culpados que precisamos punir. Quem terá provocado a cena desagradável a que assistimos? Geralmente, as mulheres desse naipe são reservadas e fogem à multidão… Que motivos teriam trazido essa infeliz ao clamor da praça?

 Jesus sorriu, complacente e tornou:

— Quem sabe a pobrezinha andaria à procura de assistência?

O pescador de Cafarnaum acentuou, contrariado:

— O responsável devia expiar semelhante delito. Sou contra a desordem e na gritaria que presenciamos estou convencido de que o cárcere e os açoites deveriam funcionar…

Nesse ponto do entendimento, velha mendiga que ouvia a conversação, caminhando vagarosamente, quase junto deles, exclamou para Simão, surpreendido:

— Galileu bondoso, herdeiro da fé vitoriosa de nossos pais, graças sejam dadas a Deus, nosso Poderoso Senhor! A mulher apedrejada é filha de minha irmã paralítica e cega. Moramos nas vizinhanças e vínhamos ao mercado em busca de alimento.  Abeirávamo-nos daqui, quando fomos assaltadas por um rapaz que, depois de repelido por ela, em luta corpo a corpo, saiu a indicá-la ao povo para a lapidação, simplesmente porque minha infeliz sobrinha, digna de melhor sorte, não tem tido até hoje uma vida regular…  Ambas estamos feridas e, com dificuldade, tornaremos para a casa… Se é possível, galileu generoso, restabelece a verdade e faze a justiça!

— E onde está o miserável? — gritou Simão, enérgico, diante do Mestre, que o seguia, bondoso.

— Ali!… Ali!… — Informou a velhinha, com o júbilo de uma criança reconduzida repentinamente à alegria. E apontou uma casa de peregrinos, para onde o apóstolo se dirigiu, acompanhado de Jesus que o observava, sereno.

Por trás de antiga porta, escondia-se um homem, trêmulo de vergonha.

Pedro avançou de punhos cerrados, mas, a breves segundos, estacou, pálido e abatido.

O autor da cena triste era Efraim, filho de Jafar, pupilo de sua sogra e comensal de sua própria mesa.

Seguira o Messias com piedosa atitude, mas Pedro bem reconhecia agora que o irmão adotivo de sua mulher guardava intenção diferente.

Angustiado, em lágrimas de cólera e amargura, Simão adiantou-se para o Cristo, à maneira do menino necessitado de proteção, e bradou:

— Mestre, Mestre!… Que fazer?!…

 Jesus, porém, acolheu-o amorosamente nos braços e murmurou:

— Pedro, não julguemos para não sermos julgados. Aprendamos, contudo, a discernir.

Na sua exposição Nilson deixa claro que o julgamento era sobre o “Delito da Mulher”, e é Emmanuel na lição 85 do livro Pão Nosso quem nos esclarece na sua lúcida mensagem.

O caso da pecadora apresentada pela multidão a Jesus envolve considerações muito significativas, referentemente ao impulso do homem para ver o mal nos semelhantes, sem enxergá-lo em si mesmo.

Entre as reflexões que a narrativa sugere, identificamos a do errôneo conceito de adultério unilateral.

Se a infeliz fora encontrada em pleno delito, onde se recolhera o adúltero que não foi trazido a julgamento pelo cuidado popular? Seria ela a única responsável? Se existia uma chaga no organismo coletivo, requisitando intervenção a fim de ser extirpada, em que furna se ocultava aquele que ajudava a fazê-la?

 A atitude do Mestre, naquela hora, caracterizou-se por infinita sabedoria e inexcedível amor. Jesus não podia centralizar o peso da culpa na mulher desventurada e, deixando perceber o erro geral, indagou dos que se achavam sem pecado.

 O grande e espontâneo silêncio, que então se fez, constituiu resposta mais eloquente que qualquer declaração verbal.

Ao lado da mulher adúltera permaneciam também os homens pervertidos, que se retiraram envergonhados.

O homem e a mulher surgem no mundo com tarefas específicas que se integram, contudo, num trabalho essencialmente uno, dentro do plano da evolução universal. No capítulo das experiências inferiores, um não cai sem o outro, porque a ambos foi concedido igual ensejo de santificar.

Se as mulheres desviadas da elevada missão que lhes cabe prosseguem sob triste destaque no caminho social, é que os adúlteros continuam ausentes da hora de juízo, tanto quanto no momento da célebre sugestão de Jesus.

Nesse grave momento de tantos desvios morais é que precisamos através de boas vibrações auxiliar nossos semelhantes. Jesus ensina que não devemos julgar o próximo, então nos perguntamos: “como temos agido, neste grave estado moral da humanidade?”. Não podemos ficar alheios ao que acontece ao nosso derredor e no mundo, e a Doutrina Espírita nos oferece os rumos orientadores nos quais podemos e devemos nortear nossos pensamentos e atos.

Milhares de criaturas estão negando seu processo existencial, vivendo festas momentâneas com pseudo alegrias. Frente aos noticiários infelizes do mundo, de profundo desequilíbrio moral, é preciso recordar as lições do Mestre, nosso guia e modelo para humanidade. Somos convidados a seguir fazendo nossas tarefas, em oração e evitando a acusação, a maledicência, o comentário infeliz.

É preciso conhecermos nossas fragilidades para combatermos nossas próprias limitações e dificuldades. Na questão de 919 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questiona: qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?

“Um sábio da Antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.” — Livro dos Espíritos, questão 919.

No livro Lampadário Espírita, no capítulo 30, Joanna de Ângelis em psicografia de Divaldo Pereira Franco nos traz uma mensagem nesse sentido, com o título “Maledicência”.

Espinho cruel a ferir indistintamente é a palavra de quem acusa; cáustico e corrosivo é o verbo na boca de quem relaciona defeitos; veneno perigoso é a expressão condenatória a vibrar nos lábios de quem malsina; lama pútrida, trescalando fétido, é a vibração sonora no aparelho vocal de quem censura; borralho escuro, ocultando a verdade, é a maledicência destrutiva.

A maledicência é cultura de inutilidade em solo apodrecido.

Maldizer significa destruir.

A verdade é como claro sol. A maledicência é nuvem escura. No entanto, é invariável a vitória da luz sobre a treva.

O maledicente é atormentado que se debate nas lavas da própria inferioridade. Tem a visão tomada e tudo vê através das pesadas lentes que carrega.

A palavra malsinante nasce discreta, muitas vezes, para incendiar-se perigosa, logo mais, culminando na calúnia devastadora.

Não há desejo de ajudar quando se censura. Ninguém ajuda condenando.

Não há Socorro se, a pretexto de auxílio, se exibem as feridas alheias à indiferença de quem escuta.

Quanto possível, extingue esse monstro da paz alheia e da tua serenidade, que tenta dominar-te a vida.

Caridade é bênção sublime a desdobrar-se em silencioso socorro.

Volta as armas da tua oração e vigilância contra a praga da maledicência aparentemente ingênua, mas que destrói toda a região por onde prolifera.

Recusa a taça venenosa que a observação da impiedade coloca à tua frente.

Desculpa o erro dos outros.

É muito mais fácil informar-se erradamente do que atingir-se o fulcro da observação exata.

As aparências não expressam realidades.

A forma oculta o conteúdo. Ninguém pode julgar pelo exterior.

Quando vier a tentação de acusar e apontar defeitos, lembra-te das próprias necessidades e limitações e, fazendo todo o bem possível ao teu alcance, avança na firme resolução de amar, e despertarás, além das sombras da carne por onde segues, num roteiro abençoado onde os corações felizes e livres buscam a Vida Verdadeira.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

*Colaborou para esta publicação: Marli Giarola Fragoso

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