A reencarnação é um importante pilar de sustentação para o pensamento Espírita. Esse conceito nos ajuda a compreender as ideias de evolução, regeneração, justiça, entre outras, dentro da Doutrina Espírita. Dessa forma, a palestra realizada na Associação Espírita Fé e Caridade, no dia 11 de fevereiro de 2021 nos traz reflexões e ponderações em relação ao “Ciclo das Encarnações”.

A inspiração para o tema da palestra encontra-se no capítulo 72 do livro Ideal Espírita, com psicografia de Francisco Cândido Xavier pelo Espírito de Lameira de Andrade.

Natureza Íntima

Como um primeiro convite à reflexão, a palestra iniciou-se com a lembrança de que somos Espíritos Imortais em evolução, remetendo à nossa natureza íntima, além da carne material.

A Nova Era, a era da Regeneração, nos convida a tomarmos consciência do que somos, facilitando nosso entendimento de onde viemos e para onde vamos.

Essa compreensão vem sendo ressaltada desde a época de Jesus, como nos indica o Evangelho de João:

“Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.” (Jo 3:3)

Esta passagem também é tratada e discutida no Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo IV, item 5, evidenciando a Verdade espiritual da reencarnação, tratada por Jesus, e sua relação direta com a construção das bases do Espiritismo.

Finalidade da Encarnação

Nos entendendo como Espíritos imortais, outras questões nos surgem, como o porquê de estarmos encarnados aqui e agora. Jesus nos orientou quanto ao que devemos zelar enquanto seres encarnados:

“Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam, mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mt 6:19-21)

A questão 132 do Livro dos Espíritos também nos elucida sobre esse objetivo da encarnação:

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. (…) Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. (…)” – Livro dos Espíritos, Cap. II, Pergunta 132

Analisando essa resposta, conseguimos entender que estamos fadados à perfeição, ou seja, ao cumprimento pleno das Leis de Deus. À medida que evoluímos, nossos erros diminuem, até o ponto em que não mais nos equivocamos em relação aos valores morais propostos pelas Leis Divinas, entrando em plena sintonia com a criação. Em outras palavras, seremos Espíritos Puros, em conexão plena com o Reino dos Céus.

Esse trecho também nos indica a importância das provas e expiações individuais para o nosso progresso, visto que precisamos passar por dificuldades e obstáculos para evidenciar nossa natureza íntima, demonstrando nossas falhas ou virtudes. Além de buscarmos nossa própria perfeição, compreensão e execução plena das Leis de Deus, também devemos cumprir nossa parte na obra de criação, exercendo nosso papel de cocriadores.

Busca pela “nossa parte na obra de criação”

Por vezes, precisamos refletir se estamos em sintonia com as oportunidades de colaboração com a obra divina, tentando descobrir quais instrumentos disponíveis aqui e agora podem nos ajudar a cumprir esse papel. Em geral, passamos nosso tempo preocupados com os aspectos materiais de nossa vida, esquecendo nossa necessidade de contribuição à criação. No entanto, essa lógica de pensamento pode estar invertida, como nos indica Jesus:

“Não vos inquieteis, pois, dizendo: Que comeremos? ou: que beberemos? ou: de que nos vestiremos? como fazem os pagãos, que andam à procura de todas essas coisas; porque vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, que todas essas coisas vos serão dadas de acréscimo. Assim, pois, não vos ponhais inquietos pelo dia de amanhã, porquanto o amanhã cuidará de si. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6:31-35)

Dessa forma, a secundarização de nosso compromisso reencarnatório pode nos levar à uma estagnação ou desaceleração em nosso processo evolutivo. À medida que nos sintonizamos com as Leis Divinas, ou buscamos o Reino de Deus, praticando o amor e a caridade, contribuímos com o nosso progresso espiritual, fazendo com que a busca pela nossa parte na criação se torne algo natural.

O laboratório Divino

A encarnação pode ser encarada, dessa maneira, como sendo um grande laboratório divino, que nos permite experimentar nossas potencialidades de Espíritos. Como Espíritos encarnados, testamos virtudes e ampliamos condições de ação no mundo material e espiritual através das diversas possibilidades que nos são dadas.

Nossa passagem por esse laboratório é planejada e elaborada visando otimizar nosso progresso, como nos explicita Chico Xavier:

“Nasceste no lar que precisavas. Vestiste o corpo físico que merecias. Moras no melhor lugar que Deus poderia te proporcionar, de acordo com teu adiantamento.” – Chico Xavier

Dessa forma, mudando nossa maneira de enxergar as dificuldades, podemos entender que as situações difíceis da vida são, na verdade, grandes oportunidades de evolução ou redenção de nossos débitos do passado.

Condição irrecusável

Com um entendimento mais aprofundado em relação à (re)encarnação, podemos analisar o capítulo de inspiração ao tema “Círculo das Encarnações”, no livro Ideal Espírita, capítulo 72 – Condição Irrecusável:

“Através dos mundos, as encarnações sucessivas alimentam as gerações sucessivas. Em razão disso, grande número de espíritos ressurgem na matéria densa de três em três ou de quatro em quatro gerações. (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Esse primeiro trecho nos traz a reflexão de que perpetuamos as oportunidades evolutivas através das próximas gerações, ao passo que grande número de nós, Espíritos, reencarnamos após um tempo por necessidade de aprimoramento. Isso nos evidencia a perfeita Justiça Divina, mostrando que colhemos tudo o que nós mesmos plantamos, durante nossas inúmeras encarnações.

” (…) Ninguém se desvencilha do círculo das encarnações dolorosas, repentinamente. Isso somente ocorre a pouco e pouco, esforço a esforço. (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Estamos envolvidos, de modo geral, nesse círculo de encarnações dolorosas, devido à dívidas e erros do passado, sendo difícil a saída desses ciclos e atavismos.

” (…) Depois da lenta evolução dos milênios, a Terra vive agora o “século do fato”, em que o raciocínio comanda a verificação de todos os sucessos. Desfazendo a miragem dos sofismas; época das mais belas florações do pensamento sublime e, ao mesmo tempo, das mais estranhas fecundações da animalidade instintiva por apresentar as promessas do porvir e os detritos do passado, no dealbar de nova aurora. (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Em outras palavras, vivemos momentos em que caminhamos pela linha tênue entre os anseios da claridade e nossos equívocos e vícios do passado. Dessa forma, é somente a consciência iluminada que nos permite tomar novos caminhos.

” (…) Descem os minutos semelhando grãos de areias na ampulheta do Espiritismo, ampliando os conhecimento da Humanidade; os espíritos a se manifestarem, aqui e ali, vão escrevendo a história de nossa própria responsabilidade ante as leis do destino. Já não podemos dormir o sono da ingenuidade. Necessário aplicar discernimento em todas as manifestações, sem copiar a instabilidade doudejante do cata-vento. (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Podemos entender, assim, que a responsabilidade de evolução é apenas nossa. Somos responsáveis pelo nosso próprio amadurecimento espiritual, como nos explica a Lei de Liberdade, que rege nosso mundo moral. Ainda, é importante analisarmos que não podemos nos “esconder” sob a ótica da ingenuidade, visto que as Verdades espirituais já tem sido reveladas para que possamos nos conectar efetivamente com Deus.

” (…) Assim, premia com o olhar de indulgência a quem te fere, recordando que possuímos colegas de experiência terráquea a viverem, de berço ao túmulo, entre o presídio e o hospital, até desaparecerem fazendo da ambulância o carro fúnebre constantemente dilacerado pelas farpas de amargosos caminhos… (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Assim como Jesus nos orientou, devemos “Amar aos nossos inimigos”, entendendo que todos temos nossos defeitos e diferentes momentos para a reforma íntima e mudanças de hábito, praticando a indulgência para com nossos irmãos.

“(…) E estende o óbolo da atenção a quem te intercepte o passo, cultivando a fraternidade espontânea, como quem sabe que amanhã não podes prescindir do amparo desse ou daquele companheiro desconhecido. (…)” – Ideal Espírita, Cap. 72

Podemos interpretar esse trecho como sendo um convite à fraternidade sem distinção, ou seja, entender que nossa evolução pode surgir onde menos esperamos e devemos, assim, ser fraternos e amorosos com todos os que cruzam nossa caminhada terrena.

” (…) Abre sorrisos, verte lágrimas, lança idéias, cria palavras e espace ações, mas utiliza todas essas possibilidades para servir, construindo monumentos de amor ao próximo, enxugando o suor do povo na sublime oportunidade do presente, porquanto somente existe essa condição, abençoada e irrecusável, para diminuirmos os estágios de prova e de aflição no cenário terrestre” – Ideal Espírita, Cap. 72

Para que construamos “monumentos de amor ao próximo”, devemos recordar da Lei de Justiça, amor e caridade, aplicando ela aonde estivermos, purificando nosso coração e nos afastando do “círculo das encarnações dolorosas”, desfrutando nossas potencialidades de cocriadores. Devemos entender, também, que o momento de realizar mudanças é o presente, agindo conforme as oportunidades e instrumentos que Deus nos coloca à disposição.

Dessa forma, podemos enxergar a reencarnação como sendo essa oportunidade divina de progresso, enfrentando cada dificuldade com a certeza de nossa evolução constante.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou a publicação:

*Colaborou para esta publicação: Alberto Luz.


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