Em palestra exibida no dia 02 de fevereiro de 2021, pela Associação Espírita Fé e Caridade, a expositora Marlete Sirqueira nos trouxe preciosas fontes sobre as diversas encarnações de Eurípedes Barsanulfo, compondo uma sequência interessantíssima, e de grande inspiração, através da vida desse Espírito tão admirável, servidor de Jesus.

As 5 Encarnações de Eurípedes a serviço de Jesus

Antes da encarnação na qual ficou conhecido como o “Apóstolo da Caridade”, vivida em Sacramento, Minas Gerais, Eurípedes Barsanulfo teve uma trajetória sublime no decurso das encarnações como trabalhador do Cristo.

Vamos logo perceber que este singular Espírito já era bondoso e sensível há muito tempo, pois que esperava a vinda do Mestre ao nosso Planeta com coração virtuoso, quando encarnado como Marcos, dois mil anos atrás.

O próprio Espírito nos revela mais tarde, no único livro que ditou, chamado “A Grande Espera”, memórias de sua passagem na Terra vestindo a personalidade de Marcos, principalmente no tocante à expectativa da chegada da Grande Estrela (referindo-se a Jesus).

1. Eurípedes Barsanulfo na personalidade de Marcos

Fonte: A Grande Espera (1991).

Marcos era de origem patrícia e ainda jovem passou a residir em Samaria, com a família. Em dado momento, movido por compaixão, induz o pai a libertar centenas de escravos seus. O pai que estimava por demais o filho, cumpre o feito. Porém, é punido por isso e tem de se ausentar, deixando-o aos cuidados de duas servas e um casal amigo.

Júlia e Felix, duas almas generosas, receberam-no como filho na Chácara das Flores. E, certo dia, apresentaram-no a um amigo ancião, cujo coração era espelho vivo de justiça e bondade, e cuja fala propagava a vinda de um Grande Espírito:

“Nossos corações se encontram plenos de esperanças, aguardando a Grande Chegada do Cordeiro. A esperança é flor miraculosa que perfuma o ideal, conduzindo as almas aos jardins eternos do encorajamento e da alegria …” – A Grande Espera, Cap. 13.

Lisandro, como se chamava o extraordinário ancião, confiou ao pequeno Marcos que o Pai Celeste lhes incumbiu a tarefa de preparar os corações para o advento da Grande Estrela. E a partir daí, Marcos escolheu edificar-se para o evento sublime. Para isso, Lisandro deixou o jovem religioso aos cuidados de um povoado essênio, de Hebron, em que “a vida lhes era constante hino às belezas imperecíveis da Grande Espera”.

Marcos e os essênios

Sendo acolhido por carinhosa recepção, o jovem disciplinou o Espírito junto desse povoado. Nele havia Espíritos sábios e corajosos, que viviam uma verdadeira Saga para encontrar o Cristo e poder ter a honra de servir e colaborar humildemente na Sua Divina obra.

Mais tarde, como Kardec aponta na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, soube-se que “o gênero de vida dos essênios se aproximava ao dos primeiros cristãos”.

Em certo momento, Lisandro percebeu que “para merecermos a presença do Salvador em nossa casa, é necessário que limpemos o interior do domicílio com a água do Bem”. Dizendo assim:

“ – Não queremos que o Salvador nos encontre os corações vazios de interesse pelos sofredores. A Chácara das Flores será, dentro em breve, um oásis de fraternidade, sob o comando de Marcos!” – A Grande Espera, Cap. 22.

Dessa forma, o jovem Marcos, a comando de novo núcleo essênio, pôde dirigir iniciativas de ordem assistencial, atendendo particularmente aos enfermos da região. Entretanto, dias dos primeiros testemunhos chegaram quando o povoado foi assolado por terrível doença.

E foi então que o Divino Mestre, ainda Adolescente, se dirige à chácara de assistência aos mais necessitados. Finalmente, Ele achava-se ali, não para os sons ruidosos de comemorações, mas para os júbilos do amparo na dor.

O encontro de Marcos com Jesus

O Jovem Jesus se dispõe a ajudar e, chegando na antessala da chácara, permaneceu humilde ao canto, quando adentra no recinto o líder do povoado:

Os olhos mansos de Marcos alcançaram o vulto esbelto, abrigado no recesso sombrio, qual lâmpada apagada, propositalmente, com o objetivo de não ofuscar o ambiente.

O moço essênio estacou por alguns instantes na contemplação do recém-chegado, depois caiu-lhe aos pés, descaindo a cabeça sobre os pés empoeirados do viajante. Em toda a sala vibrava uma atmosfera de místico fervor, que levou os demais circunstantes à mesma atitude” – A Grande Espera, Cap. 32.

Reconheceram a Grande Estrela pelo profundo Amor no olhar. De modo que, todos intimamente cantavam hosanas aos Céus e graças ao Criador e abraçaram o labor intensivo na cura dos enfermos.

Jesus explica a precedência da alma de Marcos e dos ali presentes

Ressaltando que “Hoje, mais que ontem, os escolhidos da Divina Misericórdia devem dar o testemunho da bondade, devotamento e compreensão”, o Expositor Sublime ponderou em primeira assembleia:

“– Também vós, Marcos, tendes participado dos movimentos decisivos da evolução humana, colaborando, paralelamente, na obra ascensional do mundo e na própria iluminação

– Justificar-se-ia o interesse do coração pela causa do Bem comum, se não houvessem laços precedentes como indestrutíveis elos da harmonia universal?”

Depois, lançando significativo olhar para Lisandro, o Mestre continuou:

“– Todos vós fareis parte das arrancadas decisivas do Amor, em todos os tempos, como Mensageiros do Pai de Bondade infinita.” – A Grande Espera, Cap. 36.

Assim, Jesus fez brilhar naquelas almas a Responsabilidade do Amor, inerente à prática constante de doar-se aos semelhantes, para edificação do Reino de Deus no coração dos homens.

Jesus expõe a tarefa de Marcos

“– Marcos, repousam nos teus ombros, fardos de grande envergadura bem mais delicados que os de todos os teus companheiros reunidos. O horizonte está ensombrado de incertezas e aflições, e é necessário que realizes o fato novo de dourar, com o brilho da coragem e da abnegação, a linha do entendimento nos corações. Estás disposto à grande tarefa?” – A Grande Espera, Cap. 38.

Antes de responder, Marcos perguntou humilde como poderia garantir o serviço diante de sua fraqueza. Tão logo o Rabi esclareceu que seus passos seriam amparados, Marcos respondeu:

“Aguardo dos Céus a necessária mercê afim de garantir-me a iluminação da rota a percorrer.” – A Grande Espera, Cap. 38.

E foi assim que, em contato direto com o Mestre, Marcos fortaleceu a alma através de Seus ensinos, percebendo a fonte inexaurível de Amor que vem do Pai.

O testemunho de Marcos

Foi pregando fielmente as novas diretrizes aprendidas com Jesus, que Marcos acabou sendo condenado e queimado na fogueira, em Nazaré, na cidade do Mestre amado. Tornava-se então, o primeiro mártir da Nova Aliança do Amor.

Dessa forma, Marcos contribuiu para a iluminação espiritual de irmãos; cooperou para que o Amigo Celeste encontrasse o caminho terreno mais arejado, e os corações mais preparados para o entendimento da Grande Lição redentora.

2. Eurípedes Barsanulfo na personalidade de um discípulo de Inácio de Antioquia

Eurípedes retornou célere ao cenário terreno, encarnando no século II, empenhado na tarefa de propagação da Boa Nova. Para isso, ele teve Inácio de Antioquia, pupilo de João Evangelista, como seu educador.

Ainda adolescente, em certas ocasiões, substituía seu benfeitor de Antioquia nas pregações na Palestina, mantendo também contato com apóstolo João. Vivenciou os ensinos de Jesus e, por isso, foi sacrificado e desencarnou, mais uma vez, por amor ao Divino Mestre.

Essa encarnação é melhor retratada no livro “Eurípedes – O Homem e a Missão2, de Corina Novelino.

3. Eurípedes Barsanulfo na personalidade de Rufo

Após quase 200 anos de Cristianismo, notava-se a construção do espírito de Era Nova, apesar das perseguições haverem se intensificado contra os cristãos. Nessa encarnação, como era de se esperar, Eurípedes foi uma personalidade cristã, cujo nome foi Rufo.

Escravo de Roma vivendo na região das Gálias, em Lião, Rufo atestou sua fé a Jesus inúmeras vezes. A começar negando-se a efetuar um juramento forçado por seu senhor, Taciano, de proclamar fidelidade aos deuses pagãos. Na situação, Rufo disse claramente:

“– […] sou escravo, e sempre servi aos meus senhores com lealdade, mas o espírito é livre e… Somente a Jesus Cristo reconheço por Verdadeiro Senhor!” – Ave Cristo, Cap. 5 (Reencontro).

O escravo tinha perfeito conhecimento da sua responsabilidade como fiel seguidor do Cristo e das possíveis consequências. Contudo, abnegado que era, aceitou as condições de sofrimento sem sentir-se intimidado. Chicoteado duramente, foi feito prisioneiro.

Perseguição e sentença

Nesse ínterim, surgiu um novo César, Maximino que, ante o assassinato do Imperador antigo, assumiu o trono de Roma com tirania. Assim, reiniciou-se o movimento de violenta perseguição aos cristãos, irradiado de Roma. Na metrópole, os perseguidos voltavam ao culto exclusivo em catacumbas e cidades distantes. Já nas Gálias, procuravam florestas, como druidas, para louvar a Deus, intensificando sua fé.

Sob essa influência, o questor Quirino compeliu os grandes senhores da região das Gálias a condenarem seus escravos cristãos à morte. Assim, Opílio e seu enteado Taciano planejaram o dia para última tentativa de fazer Rufo voltar atrás na sua fé, visto que ele fora o único escravo com coragem para se declarar cristão.

Caso Rufo não cedesse, sua esposa e filhinhas seriam expulsas e vendidas a outro senhor, após presenciarem a sua morte. Não só esta situação aflitiva por si só, como a escolha da execução de Rufo foram planejadas de forma que servisse de advertência aos demais escravos.

O Testemunho: fidelidade a Jesus

E é neste momento, de testemunho supremo do servidor de Jesus, que as mínimas atitudes ganham foco de todos, podendo influenciar os escravos que o assistem a deserdarem de sua fé cristã, ou a persistirem em tais ideais até os confins da eternidade. Atitudes que podem ser capazes de encorajar os perseguidores cruéis, ou de paralizá-los e abalar as fibras mais íntimas dos corações endurecidos.

Os algozes provocaram Rufo insistentemente a renegar Jesus no momento decisivo, a admiti-lo como impostor. Porém, mesmo diante das chorosas filhinhas e esposa, cujo destino aparentava incerto, ele se manteve firme na sua fé, esclarecendo com vigorosa força espiritual e coragem suprema:

“– Jesus não é mistificador e sim o Mestre da Vida Imperecível

Não temo a morte, que para vós é enigma e mistério, e para mim é libertação e vida

Nossos filhos jamais estarão órfãos. Tutelados do Cristo, no mundo, constituem a herança abençoada de nossa fé, destinada ao grande futuro… A felicidade celeste habita conosco nos cárceres da Terra. Nossos padecimentos são semelhantes às sombras ralas da madrugada que se misturam à luz nascente de novo dia!…” – Ave Cristo, Cap. 6 (No Caminho Redentor).

Assim, suas bem-amadas foram vendidas diante seus olhos, a preço ínfimo para um mercador, enquanto ele apanhava e era dirigido ao suplício. Neste instante, o comprador da mulher e filhas vai até ele e sussurra aos ouvidos:

“— Tua família encontrará um lar em nossa casa da Aquitânia. Vai em paz, eu também sou cristão.” – Ave Cristo, Cap. 6 (No Caminho Redentor).

E então um belo sorriso estampou no semblante do mártir, que se entregou com inalterável calma e alegria para o sacrifício dos que são verdadeiramente fiéis ao Mestre.

Observemos que o Espírito, qualificado para tão inspirador discurso em tal situação não realizou tamanho testemunho sem razão de ser; visto que já lapidara arduamente a fé em Jesus em encarnações anteriores.

A história de Rufo e de outros pioneiros da fé cristã nos tempos pós-apostólicos, nos presenteia como forma de imorredouro exemplo, nas páginas do livro Ave Cristo, psicografado por Francisco Cândido Xavier e ditado pelo Espírito de Emmanuel.

4. Eurípedes Barsanulfo na personalidade de Johann Kaspar Lavater (1741-1801)

Johann Kaspar Lavater

Johann Kaspar Lavater, por August Friedrich Oelenhainz

Em nova missão de Amor na Terra, Eurípedes reencarna agora em Zurique, como Johann Lavater, no século XVII. O pastor suíço era poeta, filósofo e teólogo, bem como dominava a arte de conhecer a personalidade das pessoas pelos traços fisionômicos (chamada de fisiognomonia).

Orador incomum e pensador profundo, com imensa habilidade para desenovelar Jesus dos símbolos, seu sermão atraía grande público. Como pastor, contribuiu grandemente para a divulgação do pensamento cristão desvestido de qualquer dogmatismo.

Mesmo ele tendo adotado a religião dominante do época e local, na área do protestantismo, mostrava-se inclinado ao ocultismo, apresentando distinta tolerância e tendo cultivado uma amizade com Pestalozzi desde a juventude.

Johann Pestalozzi foi educador e fundador do Instituto de Educação em Yverdun, Suíça, conhecido também como mestre de Allan Kardec. A profunda e bela amizade entre ambos, na qual Lavater era conselheiro e, por vezes, protetor de Pestalozzi, perdurou pela vida.

O pastor também se interessou pelo mesmerismo e começou a aprender as habilidades de cura. Além disso, endereçou cartas à imperatriz Maria Feodoravna, da Rússia, as quais, mais tarde, vieram a impressionar Kardec pela semelhança do conteúdo com o Espiritismo.

As reminiscências de outras existências, de sacrifício e dedicação à fé cristã, tornaram o missionário de amor admirado e respeitado.

Exilado para a Basiléia, pela sua lealdade ao pensamento cristão original, permaneceu devotado ao apostolado, retornando posteriormente, quando feriu-se numa das lutas pela tomada da cidade, no ano de 1799, de cujas consequências veio a desencarnar em 1801.

Outro fato interessante é que Lavater, depois de desencarnar, participou da Codificação da Doutrina Espírita, como um dos instrutores na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, na França. O mesmo colaborou com uma mensagem no livro “Obras Póstumas“, de Allan Kardec.

5. Eurípedes Barsanulfo na mais recente encarnação (1880-1918)

Fonte: https://apais.org.br/euripedes-barsanulfo/

Diante de tudo que vimos acerca das existências de Eurípedes a serviço de Jesus, com toda sua elevação espiritual, torna-se fácil entender o motivo que o levou a ficar conhecido como “Apóstolo da Caridade” nesta encarnação. Vamos entender porquê.

Infância e juventude de Eurípedes Barsanulfo

Nascido em Sacramento, buscava desde a infância o conhecimento. Por isso, era um estudioso autodidata, que lia muitos livros, seja sobre medicina, para ajudar na cura da mãe enferma, sejam religiosos, para nutrir seus ideais. Tinha alma muito bondosa desde cedo, dedicando amor ao próximo, para quem quer que seja.

Sempre preocupado com a saúde da mãe, que tinha crises neurológicas periódicas, aprendeu sobre homeopatia. Aos 17 anos, ele abriu uma farmácia homeopática, atendendo os necessitados da periferia da cidade. De tanto estudar livros na área da medicina, pensou em se tornar médico. Todavia, como teria que se mudar para o Rio de Janeiro e ficar longe da mãe necessitada, desiste do sonho para cuidar dela.

Assim, voltou-se à missão de educador, visto que manifestou profunda inteligência e tendências para o ensino desde pequeno. Nesse aspecto, aos 21 anos, ele participou da fundação do jornal “Gazeta de Sacramento” e, aos 22 anos, do “Liceu Sacramentano” (em 1902), onde atuava como dedicado professor de diversas matérias. Devido à fama de excelente professor, muitas crianças são dirigidas ao liceu, que então cresceu e se desenvolveu muito.

Mas além de jornalista e professor, Eurípedes foi respeitável representante político da cidade, como vereador (1903-1910). Em seguida, tornou-se também secretário da Irmandade de São Vicente de Paula, como consequência de uma infância e juventude muito religiosa e devotada do catolicismo.

Na Igreja Católica, tinha contato com vários padres, dentre eles, o padre Augusto Teodoro da Maia, que lhe deu um exemplar da Bíblia escondido (por ser livro restrito apenas aos clérigos na época). O motivo foi o interesse de Eurípedes pelo Novo Testamento, em especial, pelas Bem-Aventuranças, dentro do Sermão da Montanha, que lhe intrigava muito, devido à discrepância aparente entre os bem-aventurados a quem Jesus se referia e a realidade dessas pessoas na Terra.

Ajuste na rota: clareando os caminhos

A vida de Eurípedes seguiu, intimamente com essa dúvida angustiosa, até o momento quando, aos 25 anos de idade, a espiritualidade marcara o seu encontro com a Doutrina Espírita (em 1905). Isso ocorreu por meio do contato com o tio Mariano Cunha, que começa a lhe falar sobre o assunto. Primeiramente, a contragosto com a crença do tio, tentava convencê-lo a desistir do Espiritismo. Porém, em uma conversa, em que o tio não soube lhe responder as perguntas avançadas, o mesmo lhe deu algo que poderia, o livro “Depois da Morte”, de Léon Denis.

Eurípedes, curioso, passou a madrugada inteira lendo o livro, até o fim. Essa leitura o encantara tanto, que balançou suas convicções, dada a capacidade de responder seus questionamentos íntimos. Dessa forma, ele abriu seu coração e resolveu ir em uma das reuniões mediúnicas que ocorriam na fazenda do tio, em Santa Maria (MG), para buscar mais esclarecimentos. Chegando lá sem avisar, primeiro se surpreendeu por terem reservado um assento para ele.

Convidado a participar, ele mentalmente lembrou da sua inquietude em relação às Bem-aventuranças, e que somente seria convencido da realidade do Espiritismo se pudesse receber do próprio João Evangelista elucidações sobre o tema. Porém, essa mensagem teria que vir através do seu primo e médium, Aristides.

“Alguns minutos após, Eurípedes ouvia a mais ‘extraordinária dissertação filosófico-doutrinária, que jamais conhecera, em sua vida, sobre o luminescente discurso de Jesus’, por intermédio do interprete solicitado. Impossível atribuir a Aristides, semi-analfabeto, aquela linguagem sublime, onde o magnetismo de poderosa eloquência empolgava até às lagrimas os circunstantes.” – Eurípedes o Homem e a Missão

Obteve, assim, as peças necessárias que faltavam para completar o quebra-cabeça, para o entendimento real das Bem-aventuranças. Notou que o Espiritismo era a chave que abria os cofres para os tesouros inesgotáveis do Evangelho de Jesus.

Assim, podemos perceber o papel do Espiritismo na história de Eurípedes bem como na nossa: o de vir em auxilio da humanidade para explicar as lições de Jesus, para nos ajudar na compreensão desse código moral, universal e atemporal.

Consequências da conversão

Eurípedes, agora desperto e convicto, converteu-se sem desalento, identificando-se plenamente com os novos ideais. Desvinculou-se do cargo de secretário da Irmandade da Igreja Católica, sob orientação do próprio Espírito de São Vicente de Paula em comunicação mediúnica. Tal saída repercutiu com alarde entre os habitantes da cidade e membros da família.

Em poucos dias começou a sofrer as consequências de sua atitude incompreendida. Persistiu lecionando e incluiu o ensino do Espiritismo na escola, o que causou a retirada dos alunos um a um.

Sob pressões de toda ordem e impiedosas perseguições, Eurípedes sofreu forte traumatismo, retirando-se para tratamento e recuperação em uma cidade vizinha, época em que desabrocharam várias faculdades mediúnicas, em especial a de cura, despertando-o para a vida missionária. Um dos primeiros casos de cura ocorreu justamente com sua mãe que, restabelecida, agiu como valiosa assessora em seus trabalhos.

Difusão da Doutrina Espírita

Eurípedes auxiliava a todos, sem distinção de classe, credo ou cor e, onde se fizesse necessária a sua presença, lá estava ele, houvesse ou não condições materiais. Jamais esmorecia e, humildemente, seguia seu caminho cheio de percalços, porém animado do mais vivo idealismo.

Logo sentiu a necessidade de divulgar o Espiritismo, aumentando o número dos seus seguidores. Para isso fundou o “Grupo Espírita Esperança e Caridade”, no ano de 1905. Na tarefa recebeu apoio dos irmãos e de alguns amigos, passando a desenvolver trabalhos tanto no campo doutrinário, como nas atividades de assistência social.

Cabisbaixo com o desfecho do Liceu Sacramentano, Eurípedes recebeu uma ajuda excelsa, por meio de instruções e bênçãos de Maria, mãe de Jesus. Ela lhe disse para modificar o nome da instituição para Colégio Allan Kardec e terminou dizendo: “Acobertarei o Colégio sob o manto do meu Amor”.

E em 1907, fundou o Colégio Allan Kardec, que se tornou verdadeiro marco no campo do ensino. Esse instituto passou a ser conhecido em todo o Brasil, e ser muito procurado por alunos, tendo como destaque o modelo de educação e pedagogia revolucionária.

Encontro de Eurípedes Barsanulfo com Jesus

Segue aqui o resumo do importante encontro entre Eurípedes Barsanulfo e Jesus. O texto na íntegra encontra-se no livro “A Vida Escreve“, e na mensagem logo abaixo do vídeo da palestra.

Esse encontro ocorreu enquanto Eurípedes estava em desdobramento. Fora do corpo físico, seu Espírito começou a volitar, arrastado por uma vontade cheia de amor. Viajando guiado por braços intangíveis, chegou em campina verdejante.

E num deslumbramento de júbilo, reconheceu-se na presença do Cristo. Ofuscado pela grandeza do momento, começou a chorar. Viu, porém, que Jesus também chorava. Questionando-lhe o motivo, o Cristo não respondeu. Desse modo, para certificar-se de que era ouvido, perguntou: “Choras pelos descrentes do mundo?“.

Correpondendo-lhe o olhar, Cristo responde em voz muito doce:

“— Não, meu filho, não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. Choro por todos os que conhecem o Evangelho, mas não o praticam…

Como se caísse em profunda sombra, ante a dor que a resposta lhe trouxera, acordou no corpo de carne. E desde aquele dia, sem comunicar a ninguém a divina revelação que lhe vibrava na consciência, entregou-se aos necessitados e aos doentes, sem repouso sequer de um dia, servindo até o desencarne.

Epidemia, a gripe espanhola

A epidemia de gripe espanhola, que assolou o mundo em 1918, causando desencarnes em massa e espalhando lágrimas e aflição, redobrou o trabalho do grande missionário. Ele a previra muito antes de invadir o continente americano, sempre falando na gravidade da situação que ela acarretaria.

Manifestada em nosso continente, veio encontrá-lo à cabeceira de seus enfermos, auxiliando centenas de famílias pobres. Havia chegado ao término de sua missão terrena. Esgotado pelo esforço despendido, desencarnou rodeado de parentes, amigos e discípulos.

Dever cumprido

Eurípedes Barsanulfo seguiu com dedicação as máximas de Jesus Cristo até o último instante de sua vida terrena. Os habitantes de Sacramento (MG) fizeram verdadeira romaria, comparecendo em peso para acompanhar-lhe o corpo material até a sepultura, e sentindo que ele ressurgia para uma vida mais elevada e mais sublime.

Conclui o Espírito Manoel Philomeno de Miranda, no livro Tormentas da Obsessão:

“- Sempre interessado no progresso do ser humano e na sua transformação moral, a fim de conquistar a felicidade, Eurípedes tem trabalhado, desde recuados tempos, para conseguir esse propósito. Enquanto viveu na organização física, amou e ajudou a edificar vidas, na sua querida Sacramento. Essa recente reencarnação deixou pegadas luminosas, que prosseguem apontando os rumos do Mestre, pois ele não mediu sacrifícios para se transformar no autêntico discípulo fiel de Jesus em todas as circunstâncias.”

Eurípedes Barsanulfo no plano espiritual

Ao regressar à pátria espiritual, prosseguiu como missionário de Jesus, amparando milhares de vidas que se lhe vincularam especialmente na região por onde passou na recente existência encerrada.

Pôde constatar a falência de muitos Espíritos encarnados que deveriam ter se entregado ao ministério do Bem, e que retornavam na condição de Espíritos desvairados, empenhando-se em erguer um santuário para a saúde mental e moral. Tal local se tornou um Hospital de Esperança na esfera espiritual, que desde a década de 1930 serve de albergue para repouso e refazimento dos descuidados filhos do Calvário, que se esqueceram do Mestre.

Os pacientes recolhidos geralmente são espiritistas fracassados, em lamentáveis estados de perturbação, vítimas da própria negligência. Mas que, devido a este Benfeitor espiritual e dedicados servidores do Bem e da Caridade, encontram alento para os seus tormentos.

Essa bela atitude no plano espiritual nos faz lembrar a visão daquele encontro marcante, em que Jesus chorava por aqueles que conheciam o Evangelho, mas não o aplicavam. Talvez assim, podemos imaginar o quão profundo este encontro tocou a alma de Eurípedes.

O nome Eurípedes Barsanulfo tornou-se bandeira de esperança, e pode alargar o campo de trabalho socorrista, ampliando as áreas de atendimento sob a inspiração de Jesus.

Cooperando para a Grande Transição

Atravessamos uma Transição Planetária, marcada pelo processo de mudança na escala evolutiva do nosso Planeta, de “Provas e Expiações” para mundo de “Regeneração”. O livro “No Rumo do Mundo de Regeneração” nos traz um pouco sobre a participação ativa deste Espírito bondoso neste momento.

Atualmente, sabemos que também atua em missões socorristas em regiões trevosas. Ele, junto de sua equipe, foi até Espíritos que se denominavam justiceiros, para anunciar o “fim dos tempos maus e convidar todos ao despertar para Verdade e ao arrependimento”. Isso ocorreria através de uma última oportunidade de reencarnarem-se em massa na Terra, pretendendo uma redenção. Ao oferecerem tal luminosa ajuda, atuam por Amor do Pai Celeste, que sempre busca libertar o Espírito do crime.

Vimos que profundas mudanças sociais e morais foram sugeridas ao tempo de Cristo, sendo aproveitadas por alguns, mas que, agora, nos bate à porta novamente, nova onda impulsionadora para a transformação moral, que não mais pode ser adiada. O momento nos chama a assumir o nosso papel na mudança interna, para que a sociedade possa renovar-se, a partir da força de exemplo de cada um de nós.

A beleza das sucessivas encarnações

Vemos que o Espírito é herdeiro de si mesmo, e as reencarnações do Ser contribuem fraternalmente entre si. Armazenamos as experiências das sucessivas existências e vamos, pouco a pouco, nos depurando, para ascendermos a planos cada vez mais sutis e felizes.

Quando começamos a acompanhar as histórias das encarnações de Eurípedes Basrsanulfo, encontramos esse Espírito já em posição evolutiva considerável (Bons Espíritos), já a serviço de Jesus. Todavia, assim como Jesus, ele começou a trilhar o caminho evolutivo a partir da forma como Deus nos criou: simples e ignorantes. A diferença é que alguns Espíritos estão há mais tempo nesse caminho e logo adotam escolhas em consonância com a Lei de Deus.

Mesmo com a fé convicta em Jesus, ele não deixou de passar por provas ou de servir como exemplo de cristandade ao longo das outras encarnações, vindo como missionário de amor em nosso auxílio.

Notamos também que outros Espíritos elevados encarnaram na Terra em contato direto com Eurípedes, dando apoio essencial para este legado de conduta na Caridade. Alguns aqui citados foram Lisandro, Inácio de Antioquia, João Evangelista e Pestalozzi, sem contar com os Espíritos que auxiliavam do plano espiritual.

Por exemplo, vamos ver que o ancião Lisandro foi a encarnação de Bezerra de Menezes, e já naquele longínquo tempo disse a Marcos:

“– […] Porque nos entendemos e nossas almas se entrelaçam em raízes muito antigas, que vitalizam a grande árvore do Amor, dentro do solo dos séculos …” – A Grande Espera, Cap. 11.

Vemos, assim, a afinidade que existia entre esses dois Espíritos iluminados que, em harmonia com os ensinos de Jesus, deram as mãos e foram ao trabalho de Amor da Falange do Consolador.

Mais tarde, participaram do início do movimento Espírita no Brasil, no século XIX, e até hoje nos instruem e ajudam do Plano Espiritual, sob a direção de Jesus e influxo de Deus.

E como é bom saber que estamos sendo amparados por Espíritos devotados no Bem e no Amor, que não nos eximem da responsabilidade, mas que nos dão a liberdade de merecimento. Gratidão a Jesus, a Eurípedes e a toda Falange do Consolador!

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

Referências Bibliográficas:

  1. NOVELINO, Corina. A Grande Espera. Pelo Espírito Eurípedes Barsanulfo. 5ª ed. Araras:IDE,1991.
  2. NOVELINO, Corina. Eurípedes o Homem e a Missão. Araras:IDE, 1979.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Ave, Cristo!. Pelo Espírito Emmanuel. 24ª. ed. Brasília: FEB, 2015. Cap. 5 e 6. p. 65 a 82.
  4. PEREIRA FRANCO, Divaldo. Tormentos da Obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: Leal, 2003. Cap. 9. p. 57 a 58.
  5. WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: o Educador e o Codificador. 4ª ed. – 1. Imp. Brasília: FEB, 2019. p. 76.
  6. GODOY, Paulo Alves. Grandes Vultos do Espiritismo. Editora feesp, 1990. Cap. 18. p. 46.
  7. Eurípedes Barsanulfo e as bem-aventuranças – Artur Valadares. Vídeo disponível em: https://youtu.be/4kkUonBaI9A.
  8. Eurípedes Barsanulfo – Biografia. TV da Federação Espírita Brasileira (FEBtv). Vídeo disponível em: https://youtu.be/mCBBxQnOPJw.
  9. SILVA, Jaqueline Peixoto Vieira da. Espiritismo e educação: Eurípedes Barsanulfo e o Colégio Allan Kardec / Sacramento-MG (1880-1918). 2017. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2017. Disponível em: http://doi.org/10.14393/ufu.di.2017.490
  10. XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. A Vida Escreve. Pelo Espírito Hilário Silva. Editora FEB. 2005. 2ª parte, Cap.27 (Visão de Eurípedes). p 112-113.
  11. MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Cem Anos de Evangelho com Eurípedes Barsanulfo. 1ª ed. Editora CCDPE. 2015.
  12. PEREIRA FRANCO, Divaldo. No Rumo do Mundo de Regeneração. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. 1ª ed. Salvador: Leal. 2020. Cap. 15. p. 234

Site da Casa Espírita Eurípedes Barsanulfo em Blumenau (SC): https://www.euripedesembrusque.com/euripedes-barsanulfo

*Colaborou para esta publicação: Ana Maria Beims Lopes.

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