Em palestra transmitida pelos canais digitais da Associação Espírita Fé e Caridade, o expositor Paulo César Allebrandt nos trouxe a visão sobre como a Doutrina Espírita compreende Jesus. 

Com a passagem de Jesus na terra, segundo Emmanuel: 

(…) começava a era definitiva da maioridade espiritual da humanidade terrestre, de vez que Jesus, com a sua exemplificação divina, entregaria o código da fraternidade e do amor a todos os corações.
— Emmanuel, no capítulo 12 do livro A Caminho da Luz, psicografia de Francisco Candido Xavier.

Assim, Jesus veio cumprir a lei de Deus, veio desenvolvê-la, dar-lhe o verdadeiro sentido e adaptá-la ao grau de adiantamento dos homens (Evangelho Segundo o Espiritismo).

Introdução à Doutrina Espírita

Na introdução de O Livro dos Espíritos, encontramos um trecho em que Kardec nos apresenta os princípios básicos da Doutrina Espírita. Este trecho fala que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, que criou o Universo e tudo que está nele. 

Nesse mesmo trecho vemos também que existe o mundo corpóreo e o mundo espiritual. O mundo espiritual é o que realmente somos. Este momento é uma passagem, é um caminho de aprendizado, nada mais que um momento diante da eternidade. Estamos aqui, nesta encarnação, para evoluir e, a cada vivência, o aprendizado se expande, vamos nos transformando e mudando nosso patamar na escala de evolução. Fomos todos criados exatamente da mesma forma, simples e ignorantes. 

Nosso aprendizado acontece nos planos intelectual e moral e nosso objetivo é, à medida que evoluímos, chegar a espíritos puros, que são aqueles que mais se aproximam de Deus, que não têm mais dúvidas, que estudaram tudo e conseguem colocar esses conhecimentos em prática.

Caminho de evolução 

Podemos imaginar então o tanto que ainda temos a aprender, mas com a certeza de que esse é o nosso destino, evoluir moral e intelectualmente. E evoluímos por meio da reencarnação. A cada encarnação colocamos em prática o que aprendemos, gradativamente. Vivemos experiências diferenciadas de quando estamos no plano espiritual. 

É muito bom saber que não retrocedemos, no máximo, estacionamos, ou seja, nossa caminhada é para frente, estamos sempre evoluindo, ainda que a passos curtos e, um dia, não precisaremos mais encarnar, quando já teremos aprendido tudo o que a matéria poderia nos ensinar. 

E quando chegarmos ao estágio de espíritos puros? Ficaremos descansando e relaxando após tantas lutas? Segundo a Doutrina Espírita, o trabalho não acaba nunca. Como espíritos evoluídos, a nossa aptidão para o trabalho no bem, é ainda maior. Sendo assim, junto com o trabalho aumentamos nossa responsabilidade em fazer o bem, ou seja, vamos trabalhar e trabalhar e, este labor, será o que está no fundo do nosso coração.

Jesus, espírito puro

Após essa reflexão, constatamos que estamos progredindo para chegarmos à condição de espíritos puros. Jesus é esse espírito puro que já evoluiu, que já está trabalhando por amor, infinito amor ao próximo e já era espírito puro quando nosso planeta foi criado. Assim, assumiu uma tarefa gigantesca no que se refere ao planejamento e condução da formação do planeta.

Léon Denis, na obra Cristianismo e Espiritismo, nos trouxe a informação de que Jesus é o governador do planeta Terra.

Emmanuel, na obra A caminho da luz, explica que, no momento da formação do nosso sistema solar, um grupo de espíritos puros foi designado para zelar por esse pedaço do universo. Jesus fazia parte desse grupo e foi escolhido para cuidar do terceiro planeta desse sistema, que é a Terra. Grande responsabilidade de nosso mestre amado, cuidar de nosso planeta mesmo antes desse existir. 

A tarefa de Jesus foi planejar e conduzir a formação do planeta. Essas informações nos dão ideia da complexidade dessa tarefa, do nível de conhecimento para tal. Porque Jesus não criou o planeta, mas usou de conhecimentos científicos necessários para a realização de seu trabalho, um trabalho ativo de condução da matéria para que se formasse o planeta. A criação da Terra não foi portanto obra do acaso, mas, sim, um processo conduzido.

Depois de realizar o trabalho de formar o planeta, era necessário conduzir o processo de colonização, para abrigar espíritos que vêm para reencarnar, aprender e evoluir. Essa movimentação foi realizada por Jesus e um grupo de espíritos elevados, que o auxiliaram. Isso iniciou com animais e os primeiros seres humanos, ainda muito primitivos, simples e ignorantes, que foram, pouco a pouco, se aprimorando. Hoje, estamos distantes desse momento originário, assim como estamos distantes da condição de espíritos puros. Estamos evoluindo como indivíduos, como sociedade, como planeta.

Para nos orientar na caminhada evolutiva, nos aspectos morais, Jesus foi enviando, aos poucos, alguns emissários, sempre adaptando suas mensagens à época e ao lugar onde estariam, surgindo assim as diversas religiões existentes em nosso planeta. E cada crença foi surgindo adaptada às condições do momento, sempre voltadas, todas elas, para o bem. Claro que há algumas alterações ou desvirtuamentos, feitas (os) pela mão do homem.

A vinda de Jesus

E, após esse tempo, chegou o momento de Jesus vir nos orientar! Sua vinda foi planejada, feita no momento adequado e em uma região que já professava uma crença monoteísta (judaísmo), com uma organização social razoável e onde haveria um impacto bastante significativo na história da humanidade. Nessa região, não havia a preocupação de deixar registros históricos dos eventos, mas mesmo sendo assim, a vinda de Jesus trouxe grande impacto, se não for o maior impacto em nossa história. Jesus criou uma era, antes e depois de sua vinda. 

Ernest Renan, filósofo e historiador que não acreditava em Jesus e foi desafiado a pesquisar o mestre, não nas traduções, mas na origem da História, chegou à seguinte conclusão: “Jesus é tão grande que não coube na história. Todas as personalidades viveram, nasceram e morreram dentro da história, Jesus não, o seu berço encerrou uma época e abriu outra época”.

Sempre ouvimos a frase “Jesus é o nosso salvador”. Mas, vejamos: as dificuldades pelas quais passamos são as consequências de nossos atos, das nossas escolhas, do nosso livre arbítrio, ou seja, tudo o que passamos de difícil é nosso. Jesus é certamente importante para a nossa salvação. Apenas, pensemos, não somos passivos na história de nossa vida. Jesus veio para nos dar o exemplo, para nos mostrar como nos libertarmos de nossas más inclinações, para nos ensinar, através de atos e palavras, que ser bom é ser ativo. Jesus nos salva, na medida em que pensarmos nele como nosso professor, como exemplo.

Por que Jesus foi crucificado? Não bastaria que ele nos trouxesse as parábolas e os ensinamentos? Lamentavelmente, não. Jesus sabia que, naquele momento da história, algo drástico deveria acontecer. Quando nós juntamos todos os ensinamentos sobre bondade com uma reação a essas instruções, a crucificação teve um impacto tão violento que não há como esquecer. Divaldo Franco no livro Um encontro com Jesus, relata: 

Ele na cruz, comove-nos, sensibiliza-nos o Sermão da Montanha, quando reverte o sentido ético da humanidade ao pregar as bem aventuranças. Mas é na cruz que ele nos impacta.
— do livro “Um encontro com Jesus”.

Jesus, modelo e guia da humanidade

Jesus é um espírito puro. Ele está tão perto de Deus quanto é possível chegar. Mas não é Deus. O próprio Jesus nos disse: “o que eu faço, vós podereis fazer e mesmo mais, se quiserdes, se tiverem fé.” O que temos a fazer é seguir o exemplo Dele.

Vejamos a pergunta 625, de O Livro dos Espíritos: “qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e de modelo?” A resposta: 

Vede Jesus. Jesus é para o homem o tipo da perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra.
— O Livro dos Espíritos, questão 625.

Então, repetindo, Jesus é nosso exemplo a seguir, temos esse norte. Mas temos que agir, o que vale são nossas ações. Em nossas orações, devemos pedir orientação e esclarecimento. E nosso grande desafio é entender essas orientações e esclarecimentos desse espírito puro que veio para nos auxiliar, para transformar.

Jesus é nosso irmão na caminhada e faz com que vejamos nossa responsabilidade, tendo como parâmetro a grandeza desse irmão que galgou todos os degraus e está lá na frente, por mérito.

Finalizamos com mais algumas palavras do filósofo Ernest Renan:

Essa pessoa sublime, que a cada dia ainda preside o destino do mundo, é digna de ser chamada divina, não nesse sentido de que Jesus absorveu todo o divino, ou lhe era idêntico, mas no sentido em que Jesus é o indivíduo que propiciou à sua espécie o maior passo em direção ao divino. Jesus mostrou ao homem de onde ele vem e para onde deve se dirigir. Nele se condensou tudo o que há de bom e de elevado em nossa natureza. Ele vivia apenas de seu Pai e da missão divina que estava convicto de preencher.
– do livro “Vida de Jesus”.

Acompanhe agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

REFERÊNCIAS:

– DENIS, Leon. Livro Cristianismo e Espiritismo. Pgs. 72 e 73.- O Cristão espírita. Instrumento divulgador da Casa de Recuperação Bezerra de Menezes. Nº 168. 2009. Por Emmanuel.

– O Cristão Espírita. Instrumento divulgador da Casa de Recuperação Bezerra de Menezes. Nº 168. 2009. Por Emmanuel.

– O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. I. Ítem 3.

– O Livro dos Espiritos. Questões 13 e 625.

– RENAN, Ernest. Vida de Jesus. Pg. 392.

– XAVIER, Chico. Cap. II. Pg. 25. Por Emmanuel.

*Colaborou para esta publicação: Susana Rodrigues.
** Imagem em destaque: reprodução de “Nascimento de Jesus”, pintura de Federico Barocci (1597), do museu do Prado em Madri.

Categorias: Notícias

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