Em palestra para Associação Espírita Fé e Caridade, o expositor Flávio Stersi trouxe a visão da doutrina espírita sobre o luto. Tema apropriado ao momento em que a Terra passa por um período de transição planetária e tantos irmãos passam pela morte do corpo físico ou lidam com perda de entes queridos nos seios de suas famílias.

Encarar a morte, a perda física para os que ficam, faz parte do processo de luto. Para melhor compreensão do desencarne, vejamos o que diz Allan Kardec em O Céu e o Inferno:

À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, ele aguarda o fim com calma, resignação e serenidade.
— O Céu e o Inferno, capítulo II, item 3.

Com o estudo da Doutrina Espírita, passamos a compreender que a passagem deste mundo para a pátria espiritual não significa o fim. O desencarne faz parte da jornada espiritual de cada ser. O desenlace carnal é o encerramento de uma etapa, e o começo de outra.

Ainda em O Céu e o Inferno, Kardec ressalta que:

No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, embora a vida real esteja na alma; aniquilado o corpo, tudo se parece perdido, desesperador.
— O Céu e o Inferno , capítulo II, item 16.

Luto e fé

Para os que ficam é importante a confiança em Deus e a fé no futuro. Uma postura duradoura de inconformismo diante da perda pode dificultar muito a caminhada de nosso ente querido. Para quem desencarna, a morte traz um momento de temporária perturbação. É comum o espírito recém desencarnado passar algum tempo tateando entre o essencial e o efêmero, entre o espiritual e o material… sem saber exatamente para onde seguir.

Vejamos o que nos fala Allan Kardec em O Livro dos Espíritos a respeito dos lamentos pela morte:

Como a dores inconsoláveis dos sobreviventes afetam os Espíritos a que se dirigem?
“O Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que amou, mas uma dor incessante e irracional o afeta penosamente, porque ele vê nessa dor excessiva uma falta de Fé no futuro e de Confiança em Deus e, por conseguinte, um obstáculo ao progresso e, talvez, ao reencontro.”
— O Livro dos Espíritos, questão 936.

Importante então que não transformemos essa hora em período de maior sofrimento para nós e para aqueles que passaram para o mundo espiritual. Lembremo-nos sempre dos ensinamentos de O Livro dos Espíritos:

Em que sentido se deve entender a vida eterna?
“A vida do Espírito é que é eterna; a do corpo é transitória e passageira. Quando o corpo morre, a alma retoma a vida eterna.”
— O Livro dos Espíritos, questão 153.

Somos, portanto, seres imortais. Saibamos também que nenhuma separação é para sempre.

Nossos parentes e amigos costumam vir-nos ao encontro quando deixamos a Terra?
“Sim, os Espíritos vão ao encontro da alma a quem são afeiçoados. Felicitam-na, como se regressasse de uma viagem, por haver escapado aos perigos da estrada, e ajudam-na a desprender-se dos liames corporais. É uma graça concedida aos bons Espíritos o lhes virem ao encontro os que os amam, ao passo que aquele que se acha maculado permanece em insulamento, ou só tem a rodeá-lo os que lhe são semelhantes. É uma punição.”
— O Livro dos Espíritos, questão 289.

Desta forma é essencial o estudo da Doutrina Espírita, para que quando chegarmos a vivenciar momentos de separação e dor nos colocarmos a serviço e, na medida do nosso alcance, passemos a auxiliar nossos entes queridos na transição da vida após a vida.

Fases do Luto

O sentimento de luto é alvo de muitos estudos científicos. A psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004) se especializou em cuidados paliativos e em situações próximas da morte e identificou o que ficou conhecido como as fases do luto.

Importante salientar que a experiência do luto é bastante particular e cada ser tem uma maneira de lidar. As fases duram diferentes períodos de tempo, variando de pessoa para pessoa, em diferentes situações e momentos de vida.

Enfrentar o luto, encarar a perda, sentir um vazio, chorar, e todos os outros sintomas elencados acima fazem parte sim, desse processo. Já a não aceitação e a revolta, embora sintomas naturais, precisam ser enfrentados com fé e resignação.

Na obra Voltei, escrita por Irmão Jacob pela psicografia de Francisco Candido Xavier, podemos compreender como se dá o desvencilhamento do corpo físico:

Quantas vezes; julguei que morrer constituísse mera libertação, que a alma, ao se desvencilhar dos laços carnais, voejaria em plena atmosfera usando as faculdades volitivas! Entretanto, se é fácil alijar o veículo físico, é muito difícil abandonar a velha morada do mundo. Posso hoje dizer que os elos morais são muito mais fortes que os liames da carne e, se o homem não se preparou, convenientemente, para a renúncia aos hábitos antigos e comodidades dos sentidos corporais, demorar-se-á preso ao mesmo campo de luta em que a veste de carne se decompõe e desaparece. E se esse homem complicou o destino, assumindo graves compromissos à frente dos semelhantes, através de ações criminosas, debater-se-á, chorará e reclamará embalde, porque as leis que mantêm coesos os astros do Céu e as células da Terra lhe determinam o encarceramento nas próprias criações inferiores.
— Irmão Jacob, em “Voltei”, psicografia de Chico Xavier,

Por mais que, estudando a Doutrina Espírita, tenhamos esse entendimento sobre a imortalidade da alma, e a experiência do desencarne, a dor daqueles que se despedem de um ente querido é muito grande. Por isso mesmo, como coloca o palestrante Flávio Stersi, “a vivência do luto é fundamental”. É importante expressar os sentimentos, a saudade e as lembranças do ente querido, de forma a continuar a nossa vida entendendo o fenômeno da morte como um processo natural e uma libertação para os entes que se vão.

Em seu exemplo prático ao viver o luto pelo desencarne de sua querida mãe, o palestrante Flávio Stersi nos afirma que “o importante é ajudarmos os entes queridos no momento de transição, vivenciando a dor coletiva desse momento mediante nosso entendimento e atitude de fé e solidariedade”.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação.

*Colaborou com esta publicação: Magda do Carmo Gonçalves.

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1 comentário

José Floriano Werpachowski Gadonski · 25 de junho de 2022 às 17:35

Muito bom esta publicação.
Estou preparando uma palestra com o tema Luto.
Vou basear-me nas fontes aqui citadas e no nome deste articulista.
Grato

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