Quem nunca errou e depois se arrependeu? E quem não reincidiu no erro, lamentou o mal cometido, e acumulou mais um tanto de culpa? Sob os escombros de arrependimentos e culpas, nos sentimos sufocados. Renasce dos teus escombros! É o chamamento. O castelo antigo das tuas convicções está em ruínas. É preciso que o Homem Novo seja construído.

Há dois tipos de arrependimento: o positivo e o negativo. O primeiro, ajuda-nos a reconstruir logo o que destruímos, a refazer o que não podemos mais desfazer. O segundo, mantém-nos paralisados à beira do caminho, enquanto nossos companheiros e nossos amores seguem à frente. Estacionamos precisamente porque nos falta coragem para enfrentar o olhar severo da própria consciência. É verdade, estamos envergonhados, temerosos e angustiados, mas por que demorar-nos no arrependimento, cruzarmos os braços e esconder-nos, como um caramujo, dentro da carapaça das ilusões?

O arrependimento somente se dissolve no trabalho construtivo. Incontáveis multidões, no entanto, tentam fugir de si mesmas, ignorando seus próprios fantasmas interiores. A culpa existe em nós; impossível negá-lo, pois o erro já está cometido mesmo. O que temos de fazer, agora, não é fingir que ela não existe, porque é justamente esse fingimento, essa fuga, que nos mantém presos, detidos, marcando passo, vendo a multidão passar por nós, em busca da paz… (Diálogo com as Sombras, cap. 4).

Nos canais digitais da Associação Espírita Fé e Caridade, Carla Ribeiro aborda de forma simples sobre a obra Jesus e Atualidade. Trata-se do primeiro livro da Série Psicológica de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco. Hoje discutiremos sobre uma reflexão presente no capítulo 2 desta obra, chamado Jesus e Reencarnação.

A Culpa, o Ego e o Self

Vamos aprender com Joanna de Ângelis que o sentimento de culpa é desacordo entre o ego e o Self. Mas antes, o que é ego e Self?

O ego é o centro da consciência, é o “eu superficial” manifestado em cada existência que encarnamos, na personalidade assumida. Já o Self é diretor geral da consciência, é o “Eu profundo” a Individualidade imortal, gerada para alcançar o Infinito e a Consciência Cósmica. Ou seja, o Self é Deus em germe, imagem e semelhança de Deus, em que as experiências evolutivas desenvolvem e aprimoram.

O ego estrutura-se para adquirir consciência de sua realidade, não conflitando com o Self, que o direciona, única maneira de libertar a sombra.
-– Em busca da Verdade, cap. 2.

O ego maduro é aquele equilibrado com o Self, capaz de elaborar as próprias frustrações. Aquele que se movimenta conectado com o Self e evolui para o preenchimento de necessidades mais transpessoais. A imaturidade psicológica é o ego desestruturado.

O ego, quando imaturo, não está atento e não quer escutar aquilo que está além dos interesses pessoais e necessidades imediatas. Por isso, enxerga apenas parte da realidade. Encontra-se incapacitado de assimilar e tornar consciente certos conteúdos e experiências.

Mas o Self, a expressar a essência divina do Ser imortal, quando quer ampliar a consciência e trazer as respostas existenciais, traz a realidade do Ser à tona. O Self é capaz de registrar ações inconscientes, pois, como espírito, sabe da Lei de Deus.

Nessa situação, quando o ego se depara com a realidade clara do Self, enxerga melhor as sombras do Ser. Ao perceber que não cumpriu o dever perante a Lei Divina, então vem o sentimento de culpa. Vem o “peso na consciência” pelo erro.

A culpa é sempre proporcional ao grau de lucidez que se possui. O arrependimento resulta do quanto sabíamos fazer melhor, e não o fizemos.
-– Renovando Atitudes, cap. 11.

Nem por isso vamos querer andar nas trevas da ignorância, pois ninguém escapará da própria consciência. Saber e não fazer, embora não seja o ideal, faz parte do processo evolutivo. Desse modo, deve-se estudar e saber o que é certo diante a Lei de Deus. Pouco a pouco iremos conseguir sentir e colocar em prática esse conhecimento.

E o principal: quando sentimos culpa, devemos lembrar que ela tem um objetivo. Para que ela aparece? Para nos alertar e sinalizar um possível erro em relação à Lei de Deus. Assim, também faz parte do mecanismo de reajuste.

É importante a autoanálise sincera para conseguir perceber pensamentos e atitudes infelizes. Da mesma forma, importante identificar as motivações que levaram isso. Isso auxiliará na compreensão de si, de como lidar consigo mesmo e com os outros.

Reconhecido o erro, então temos 2 opções: a primeira deixar a culpa se enraizar no psiquismo e paralisar-nos as ações. E a outra, usá-la como ponto de partida para reparar o erro, e aplicar-se ao dever.

O peso da culpa

Não te crucifiques na consciência de culpa, após reconheceres o teu erro.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Somos aconselhados a não nos apegarmos ao sentimento de culpa. Isso não vai resolver nossa situação ou gerar processos que nos auxiliem a crescer. A culpa é como um aguilhão da consciência, para nos mostrar que andamos por caminhos equivocados.

Despertos da condição de erro, devemos buscar não o martírio, mas o aprendizado, a revisão em si dos gatilhos que induzem ao erro, e as ações que podem repará-lo.

O que temos de crucificar é o ato contrário à Lei de Deus, e não aquele quem o cometeu. Crucificamos e exterminamos esse ato mudando-o para um melhor, ou seja, nos transformando moralmente. Todos os dias temos a oportunidade de mudar e percorrer o caminho ensinado pelo Cristo.

Amargura demasiada

Não te amargures em demasia, descobrindo-te equivocado.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Joanna não está dizendo para não nos afetarmos pelo equívoco cometido. Mas para não nos afetar em demasia. É ruim, é difícil, é frustrante, é triste, quando percebemos nossos erros ou dificuldades. Entretanto, não podemos ficar apenas no reconhecimento doloroso.

Mesmo assim, sabemos que muitas vezes sentiremos a necessidade de passar pelo caminho da dor moral da culpa, como forma de expiação, para conseguir iniciar um caminho de reparação. No livro O Céu e o Inferno, Kardec coloca que o caminho para se reparar uma falta é o arrependimento, a expiação e a reparação.

Prisão de sombras

Não te encarceres em sombras, depois de identificares os teus delitos.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Como vimos, a culpa serve para nos colocar num lugar de reconhecimento do erro. Ela funciona como um sistema de alerta, pois muita das vezes a falta cometida foi inconsciente e está gravada nele.

O apego à culpa nos aprisiona e coloca num lugar de paralisia, atrasando nossa evolução:

Culpa quer dizer paralisação das nossas oportunidades de crescimento no presente em consequência da nossa fixação doentia em comportamentos do passado.
-– Renovando atitudes, cap. 11.

Olhemos para culpa e busquemos processar o que se passou conosco. Olhemos para nós mesmos, para nossas sombras. Busquemos tornar consciente as sombras inconscientes, para trabalhá-las, digerí-las e fazer as pazes consigo mesmo. Joanna nos convida justamente a:

Conscientizar a sombra, diluindo-a, mediante a sua assimilação, ao invés de ignorá-la, constitui passo avançado para a perfeita identificação entre ego e Self.
– Em busca da Verdade, cap. 1

Emmanuel complementa esse assunto dizendo:

Da culpa deriva o remorso, impondo-nos brechas de sombras aos tecidos sutis da alma.
-– Pensamento e vida, cap. 22.

Hermínio de Miranda vai nos dizer que “o remorso é, pois, uma flor belíssima, de muitos e pontiagudos espinhos”. O remorso dói, e indica a culpa. Mas faz com que nossa frequência vibracional fique numa faixa inferior, sintonizando com outros Espíritos assim. O que não vai ajudar, pois alimentamos mais esse sentimento.

“Cair em culpa demanda, por isso mesmo, humildade viva para o reajustamento tão imediato quanto possível de nosso equilíbrio vibratório, se não desejamos o ingresso inquietante na escola das longas reparações.
-– Pensamento e vida, cap. 22.

Culpa e Perdão

Pede perdão e reabilita-te, ante aquele a quem ofendeste e prejudicaste.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Este é um exercício muitas vezes difícil. Porque vai além de reconhecer e compreender o próprio erro. É pedir o perdão para pessoa que prejudicamos intencionalmente ou não. E ir mais além, buscando ajudar esse irmão, desejando a oportunidade de lhe ser útil.

Assim, o caminho é reconhecer o erro para nós, e reconhecer para o outro. Tendo a humildade de dizer que errou com a pessoa, pedindo o perdão e procurando lhe fazer o bem. Assim, nossa consciência poderá se libertar da culpa.

É por essa razão que Jesus, não apenas como Mestre Divino mas também como Sábio Médico, nos aconselhou a reconciliação com os nossos adversários, enquanto nos achamos a caminho com eles, ensinando-nos a encontrar a verdadeira felicidade sobre o alicerce do amor puro e do perdão sem limites.
-– Pensamento e Vida, cap. 22.

Após nos exortar a pedir perdão, Joanna de Ângelis ainda complementa:

Se ele (a pessoa ofendida) te desculpar, será bom para ambos. Porém, se não o fizer, compreende-o e segue adiante, não mais errando.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Sobre isso, a palestrante Carla Ribeiro nos fala: “se a pessoa te desculpar será excelente para vocês, que seguirão seus caminhos em paz. Mas se não te perdoar, não fique preso à situação de algoz, ou de vítima da falta de perdão. Siga em frente!”.

Se você compreendeu esse erro, pediu perdão para quem foi prejudicado e não guarda remorso. Sua parte foi feita.

Se o irmão não aceitar o pedido de desculpas, é necessário compreender que ele está num momento evolutivo que não consegue dar conta desse perdão.

Continue orando por ele e desejando seu bem. Bem como, se esforce na vivência do Evangelho de Jesus, pois este é o melhor exemplo que toca o outro. A pessoa poderá ver que você mudou, ou pelo menos que está buscando melhorar.

Talvez venha o perdão, mas somente no momento que esse irmão der conta de compreender o que se passou com vocês. Ou quando ele entender o quanto essa situação de não perdoar é prejudicial para ele mesmo. Assim como é para nós, quando não nos perdoamos, ou não perdoamos terceiros.

Libertação

Infelicitado por alguém, perdoa-o e desatrela-te dele, facultando-lhe a paz e vivendo o bem-estar que decorre da ação correta.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

O perdão é a libertação para cada um seguir seu caminho como irmãos, trazendo a felicidade de se ajustar à Lei de Amor, Lei de Deus.

E lembremos do autoperdão, não menos importante para essa libertação:

Identificada a culpa, surge o imperativo do autoperdão, através do qual a racionalização do ato abre campo para o entendimento do fato menos feliz, sem punição, nem justificação doentia, mas simplesmente, digestão psicológica do mesmo.
-– O Despertar do Espírito, cap. 2.

O autoperdão é processo essencial para não nos demorar nesses conflitos de culpa. A capacidade de se perdoar, é demonstração de amor próprio. Jesus nos disse: “Ame ao próximo como a si mesmo”. Portanto, é necessário se amar para amar o próximo verdadeiramente. Da mesma forma, vale para o perdão.

Temos consciência que isso é o melhor para nós, e queremos nova oportunidade. Amar é uma decisão e esse amor começa em mim.

Vá e não peques mais

Não guardemos culpa. Optemos pelo melhor, modificando nossa conduta. Reconheçamos o erro e não olhemos para trás, e sim, para frente, dando continuidade à nossa tarefa na Terra.
— Renovando atitudes, cap. 11.

Aprenda com a falta cometida, reflita e faça diferente. Mas se errar novamente, analisa se errou no mesmo ponto, ou se avançou um pouco. Pense o que você precisa mudar em si para superar isso. Esse é o processo.

Troque a culpa por responsabilidade. Busque a autoconsciência e o conhecimento das Leis de Deus. E ore, a fim de que se tenha força, coragem e fé para a transformação íntima necessária.

Descoberta a falta de maturidade, tenha paciência com a infância espiritual. Acolha a criança interior e agradeça por te trazer até aqui. Porém, agora é hora de seguir em frente rumo à maturidade espiritual.

Por fim, o que é ter essa maturidade? É não demorar no sentimento de culpa, não se autopunir, nem mesmo se evadir, culpando terceiros. É perdoar e seguir em frente atento. É se responsabilizar diante da vida, assumir as consequências de seus atos. E principalmente trabalhar na reparação dos atos contrários a Lei Divina.

Trabalhemos no bem e na reparação hoje, para no futuro nos encontramos em melhores condições emocionais e psíquicas. Nesse sentido, Joanna nos chama:

Renasce dos teus escombros e recomeça a recuperação de imediato, evitando futuros retornos expiatórios, injunções excruciantes, situações penosas.
-– Jesus e Atualidade, cap. 2.

Precisamos decidir ser felizes!

Se qualquer tempo é suscetível de ser ocasião para resgate e reajuste, todo dia é também oportunidade de recomeçar, reaprender, instruir ou reerguer.
Onde estiveres e como estiveres, dá-te à
serenidade e ao espírito de serviço e entenderás, com facilidade, que o amor cobre realmente a multidão de nossas faltas, apressando, em nosso favor, a desejada conquista de paz e libertação
– Ceifa de Luz, cap. 22 (grifo nosso).

Acompanhe agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

Referências bibliográficas:

  1. FRANCO, Divaldo Pereira. Jesus e Atualidade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 12. ed. Salvador: LEAL, 2014. 92p. (Série Psicológica – Volume 1). Cap. 2 (Jesus e Reencarnação).
  2. FRANCO, Divaldo Pereira. O Despertar do Espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 10. ed. Salvador: LEAL, 2014. 212 p. (Série Psicológica – Volume 10). Cap. 2 (Necessidade de Culpa).
  3. FRANCO, Divaldo Pereira. Em busca da Verdade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 3. ed. Salvador: LEAL, 2014. 272 p. (Série Psicológica – Volume 15). Cap. 1 e 2 (O Ser Humano e sua totalidade; Fragmentações morais).
  4. MIRANDA, Hermínio Corrêa. Diálogo com as Sombras: teoria e prática. 25 ed. – 8 imp. Brasília: FEB, 2019. 359 p. Cap. 4 (Técnicas e recursos) p. 263.
  5. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. 57ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, Cap. VII – As penas futuras segundo o Espiritismo (Código penal da vida futura, item 16°)
  6. XAVIER, Francisco Cândido. Ceifa de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. 2. ed. 10. imp. –Brasília: FEB, 2019. 166 p. (Coleção Fonte viva; 5). Cap. 22 (Renovação em Amor), p. 26.
  7. XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 19. ed. 1. imp. –Brasília: FEB, 2013. 125 p. Cap. 22 (Culpa), p. 39.
  8. NETO, Francisco do Espírito Santo. Renovando Atitudes. Pelo Espírito Hammed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 1997. Cap. 11 (Olhando para trás) p. 32-33.
  9. Módulo 3 – Aula 1 – Estruturação do ego – Série Psicológica de Joanna de Ângelis: https://www.youtube.com/watch?v=3d1B3lr6N9g
  10. Módulo 7 – Aula 2 – A Culpa e a Lamentação – Série Psicológica Joanna de Ângelis: https://www.youtube.com/watch?v=6RxsAV70bWY

* Colaborou para esta publicação: Ana Maria Beims.
* Imagem em destaque:
Karina Zhukovskaya via Pexels.

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