Este artigo é baseado em palestra transmitida nos canais digitais da AEFC, por Otávio Ernesto. A partir do capítulo VII da parte segunda de O Livro dos Espíritos, o palestrante nos esclarece sobre as dinâmicas relacionadas ao retorno do espírito à vida corporal. 

Este capítulo contém 70 questões divididas em 8 tópicos — e veremos cada um deles a seguir.

1. Prelúdios do retorno

As questões deste tópico nos trazem a forma como o espírito encara o reencarne. Traz explicações sobre a possibilidade de desistir da reencarnação, de a aceitar com boa vontade e sobre como escolhe o corpo. Eis os principais pontos:

  • A reencarnação é uma necessidade da vida espírita.
  • Podemos retardar ou antecipar nossas reencarnações, mas não podemos evitá-las indefinidamente.
  • O corpo que teremos pode ser escolha nossa ou impositivo evolutivo.

Em muitos casos nem temos opção de escolher o corpo. Podemos vir com problemas de saúde, deficiências, predisposições para enfermidades que tenham a ver com nossas existências passadas. 

  • A perspectiva da reencarnação nos traz tanta ansiedade quanto a perspectiva da morte.

No plano espiritual tomamos consciência de tudo que precisamos fazer, nossas falhas e problemas. Então para reencarnar, é como se nos baixasse uma cortina, em que esquecemos isso tudo e temos que vir provar se entendemos o que precisamos fazer.

Pense: quando ficamos mais nervosos, antes ou depois da prova do vestibular? Na reencarnação é igual, na hora de vir ao mundo material, muitos espíritos ficam receosos.

Existem histórias, uma delas no livro Missionários da Luz psicografado por Francisco Cândido Xavier e ditado pelo espírito André Luiz, sobre a reencarnação de Segismundo. Nesse caso a espiritualidade amiga teve de imprimir um grande esforço para convencê-lo de que precisava encarnar naquela determinada família, daquele jeito para que ele pudesse evoluir, subir alguns degraus.

Ainda temos nesse tópico esclarecimentos como:

  • A reencarnação é uma necessidade.
  • Todos tivemos que reencarnar muitas vezes até atingir o estado em que estamos hoje.
  • Não mais reencarnar não é opção.

2. União da alma e do corpo

  • A união entre o corpo físico e o espírito se dá desde a concepção.

Antes inclusive ocorre uma aproximação do reencarnante com a futura mãe e o futuro pai.

Há teorias de que a ligação entre corpo e espírito se estabeleceria a partir de determinada semana ou mês, ou quando a criança nasce e chora. Mas os espíritos são bem claros nesse ponto: essa ligação se inicia desde a concepção.

  • A união entre espírito e corpo se completa no nascimento.
  • O reencarnante pode recuar e interromper a união com o corpo, da mesma forma a mãe ou outra pessoa podem fazê-lo. Em qualquer caso, ocorre uma transgressão à Lei Divina. Em O Livro dos Espíritos a expressão usada para este ato é crime.

Caso haja interrupção do processo reencarnatório por qualquer motivo, o espírito volta ao plano espiritual e retorma seu planejamento para uma próxima oportunidade.

3. Faculdades morais e intelectuais

O tópico trata de por que há pessoas que nascem mais inteligentes ou menos inteligentes, mais bondosas ou menos bondosas, e como isto acontece.

  • As virtudes e vícios que apresentamos já nos pertenciam antes de reencarnarmos.

Se alguém vem e se revela uma pessoa violenta, certamente esta pessoa já era violenta em outras vidas.

Podemos adquirir vícios aqui e agravar outros. Vícios não são só químicos ou físicos, de abuso de substâncias. Há também os vícios morais, como mentir, ser preguiçoso, ter inveja.

  • O que revelamos ao atingir idade madura, já veio de antes.

Crianças prodígio que desde pequenas revelam capacidade enorme para as coisas, já tinham essa inteligência. Muitos pais sentem-se orgulhosos por acreditar serem os únicos responsáveis pelo desenvolvimento intelectual dos filhos. 

Quando o pai nota que tem uma criança com inteligência aguçada, ou chamada superdotada, a responsabilidade dos pais é maior. É preciso dar vazão e condições de realizar o trabalho que este espírito se propôs a fazer aqui. 

Muitos destes espíritos que vemos chegar agora, os emigrados de planetas do sistema das Plêiades, da estrela de grandeza superior Alcíone, são irmãos extremamente capacitados moralmente e em inteligência. Muitas vezes queremos educá-los, formatá-los, para o modelo de sociedade que temos hoje, quando na verdade deveremos aprender com eles.

Eles possuem necessidades completamente diferentes. Existem pais que se preocupam porque o filho não quer brincar. Os espíritos mais evoluídos não brincam, eles trabalham.

  • As qualidades morais e intelectuais em níveis diferentes significam que progredimos mais ou menos em aspectos diferentes.

A existência de pessoas muito inteligente mas perversas, e outras muito bondosas mas com pouco brilho intelectual indica que em determinadas encarnações avançamos numa direção, e em outras encarnações avançamos em outra direção. Alguém não muito inteligente pode numa encarnação não tratar de questões complexas, mas ter ocupação simples, rudimentar, e realizar trabalho de que envolva caridade, amor ao próximo. O contrário também existe. Não podemos desprezar pessoas extremamente inteligentes que trazem o progresso mas revelam um caráter pouco benevolente.

  • Sofremos influências de espíritos bons e de espíritos imperfeitos, mas não temos diversos espíritos habitando em nós.

Na época de Kardec existiam teorias de que se a pessoa fosse inteligente mas ruim, ou quando a pessoa era um artista mas não conseguia ser muito prodigioso em lógica, por exemplo, é que teria diversos espíritos habitando dentro dela, cada um com uma capacidade. Isso vem do tempo em que enquanto humanidade acreditávamos em muitos deuses. Os espíritos deixam claro que não é assim. Somos um único espírito que aprendeu coisas numa direção mas não aprendeu na outra ainda, precisando equilibrar as asas do progresso moral e intelectual

4. Influência do organismo

O tópico trata da questão de o corpo ser causa ou efeito. Por exemplo, por que uma pessoa nasce com deficiência auditiva ou de visão?

  • O exercício das faculdades do espírito depende dos órgãos que lhe servem de instrumento. 

Imagine se alguém se propõe a reencarnar pra ser músico e nasce sem as mãos, qual instrumento iria tocar? Ou se um espírito precisa reencarnar e ter determinado trabalho que exija a visão porém nasce cego.

  • A questão 370 coloca: pode-se deduzir da influência dos órgãos uma relação entre o desenvolvimento de órgãos cerebrais e o das faculdades morais e intelectuais?

Acontecia muito na época de Kardec achar que a inteligência estava ligada ao tamanho do cérebro. Quando morria uma pessoa muito inteligente, preservavam o cérebro para estudar. 

Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.
— O Livro dos Espíritos, questão 370.

Essa questão fica ainda mais clara nas obras secundárias da Doutrina Espírita, principalmente as de André Luiz, como em Nosso Lar, quando se descreve o departamento da reencarnação. Ou em Missionários da Luz, que explica como o espírito plasma o seu corpo de acordo com a necessidade que tem para cada vida. Se um espírito vem para ser um pianista de sucesso, naturalmente terá mãos boas, tudo o que precisar para exercer aquela arte. 

É importante que tenhamos esta visão: não é o cérebro que faz a gente ser inteligente. Somos espíritos e geramos o corpo que precisamos para esta etapa de nossa jornada evolutiva.

5. Idiotismo, loucura

Neste tópico O Livro dos Espíritos faz uso de palavras hoje não mais em uso, que na época da codificação, século 19, eram termos que definiam limitações cognitivas e doenças mentais.

  • Cretinos e idiotas muitas vezes são muito inteligentes.

São inteligentes como espíritos, mas o corpo que têm naquele momento não lhes permite a expressão de sua inteligência, por uma expiação ou prova.

  • Punição (expiação) pelo abuso que tenham feito de certas faculdades.

Aprendemos na Doutrina Espírita que muitas vezes o que cometemos nas vidas passadas se reflete em necessidades de purgação em nós mesmos, que estabelecemos com nossa própria consciência. Não é regra geral, mas isso ocorre com bastante frequência.

  • Influência recíproca do corpo sobre o espírito e vice-versa.

Se alguém lesionar o corpo, pode começar a ofuscar propriedades do espírito que poderão demandar muito tempo na vida espiritual para poder recuperar tais propriedades.

Por exemplo, uma pessoa muito inteligente, que nasce com as faculdades mentais sem qualquer restrição, mas que se torna dependente de drogas a ponto de danificar o aparelho neurológico durante 30 anos até desencarnar. Até recuperar novamente as faculdades que ela tinha como espírito, terá que depurar muita coisa que ela acabou danificando no seu corpo perispiritual, mas fato é que algumas lesões que causamos em nós mesmos, leva-se muito tempo pra poder eliminar, mesmo no plano espiritual.

  • Estados mentais alterados por muito tempo podem necessitar de muito tempo de recuperação após o desencarne.

6. Sobre a infância

Há dois pontos nesse tópico que são bem importantes: por que nós precisamos da infância, por que não nascemos prontos? Por que não somos como o pintinho que sai do ovo e já sai comendo a própria comida e em poucas semanas se torna independente?

  • A fase infantil pela qual passa o Espírito tem dupla finalidade:
    • Tornar o Espírito mais flexível e acessível aos conselhos e ensinamentos daqueles que os devem fazer progredir.
    • Despertar nos pais o sentimento de carinho e amor, provendo os cuidados necessários.

Não necessariamente os pais, às vezes os outros que nos ensinam (professores, avós), por isso foi usado o termo “daqueles que os devem fazer progredir”.

Imagine alguém que em outra encarnação era extremamente cruel, pode ter cometido crimes, assassinatos. Se viesse à Terra e logo após a encarnação se manifestasse todas essas tendências, será que os pais conseguiriam incutir nele conceitos de bondade, tolerância, perdão e carinho? Seria difícil.

A ingenuidade das crianças, independentemente do que ela tenha sido em outras vidas, desperta nos pais sentimento de carinho, para prover os cuidado materiais e os importantes ensinamentos morais.

A função da infância é tornar possível inspirar na criança coisas boas. Infelizmente muitas vezes a infância faz o oposto, dependendo do meio social onde a criança está.

7. Simpatias e antipatias terrestres

Por que há pessoas que quando conhecemos imediatamente nos afeiçoamos? E outras que a gente não se sente bem em estar por perto? Frequentemente é resultado de convivências anteriores. A gente se reencontra. Sabe aquela pessoa que você conheceu, e depois de uma semana você já pensa “parece que te conheço há 50 anos”? Às vezes são 500, ou 5 mil anos. Não se sabe, podemos ter sido companheiros dessa pessoa, podemos ter sido pai, mãe, filho. 

O espiritismo abre essas possibilidades. Como por exemplo alguém que nasceu depois que seu avô desencarnado. E que pode ser o mesmo espírito, o próprio avô reencarnado. Emmanuel relata que ele foi a reencarnação do bisavô dele, Públios I. Depois ele foi o Públios Lentulus, e cada vez que via pinturas e imagens do bisavô pressentia que era muito familiar.

  • As simpatias e afeições imediatas são frequentemente resultado de convivências em vidas anteriores.
  • A antipatia instintiva pode ter origem em vidas anteriores, mas pode igualmente ser devida a divergências extremas no modo de pensar e agir. Não vamos generalizar porque podem ser simplesmente antagonismo.
  • Espíritos imperfeitos transformam antipatias em ódio e inveja. Espíritos mais evoluídos transmutam a antipatia em piedade.

8. Esquecimento do passado

Por que temos que esquecer o passado quando reencarnamos? Não seria mais fácil a gente já vir com um manual de instruções ou já saber o que a gente fez, o que foi e o que se propôs a fazer aqui nessa vida? Porque todos nós fizemos um planejamento de reencarnação, mas a gente não traz ele pronto, não é mandado pra nós.

  • O esquecimento das encarnações anteriores é uma providência necessária para a vida em sociedade

Não existiria sociedade se todos nós nos lembrássemos do que a gente foi e do que os outros foram. Imagine como seria isso, se todos se lembrassem e por acaso resolvessemos viver juntos nessa vida. Ou quando nasce seu filho e você o reconhece como sendo seu assassino recorrente de encarnações anteriores. Não haveria vida em sociedade se não houvesse o esquecimento do passado.

  • As tendências instintivas e propensões intelectuais e morais nos dão indicação do tipo de passado que tivemos.

Todos nós ao aceitar a reencarnação como uma realidade, paramos pra pensar. “Acho que em outra vida eu devo ter sido isso ou aquilo”, ponderamos. Seja pelas vontades, propensões, interesses, habilidades que temos. Tem gente que tem facilidade incrível para compreender as coisas da medicina mesmo não sendo médico, similarmente ocorre para quem não é advogado mas entende com facilidade das leis.

  • A auto-análise e auto-conhecimento nos dão pistas seguras dos acertos e enganos que já cometemos em outras encarnações.

Não tem bula, não tem receita, não vem com manual, mas se a gente fizer auto-análise encontramos dentro de nós coisas que já vieram com a gente, que temos que trabalhar. Coisas que não são boas.

Se tivéssemos com todos os problemas resolvidos estaríamos num mundo de regeneração, mais evoluídos. Todos temos coisas para consertar. Auto-análise e autoconhecimento são ferramentas seguras.

Conclusões sobre o retorno à vida corporal

Neste capítulo podemos levar 2 grandes mensagens.

  • O Livro dos Espíritos nos dá, em cada capítulo ou tópico, os fundamentos para compreensão da vida corporal e da vida espiritual. Porém, esses fundamentos se desdobram em outras obras da codificação e da literatura subsidiárias.

Sobre reencarnação, a sugestão é ler livros de André Luiz. Em sua coletânea aprendemos sobre planejamento, momento de reencarnar, com quem reencarnar, como é o processo biológico e mais.

  • A reencarnação é demonstração do amor infinito que o Pai tem por cada um de nós.

Não tem limite de reencarnação, não é que nem colégio que acaba sendo jubilado se ficar repetindo demais. Temos o direito de errar quantas vezes quisermos, de reiniciar quantas vezes quisermos. Mas nós queremos progredir logo.

  • A reencarnação é mecanismo infalível de aperfeiçoamento e progresso, por cuja oportunidade devemos ser gratos, por maior seja a dificuldade aparente por que passamos.

Como diz a famosa frase no túmulo de Allan Kardec: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Tal é a Lei.”

Acompanhe agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

*Colaborou para esta publicação: Diego Tondo Souza.
**Imagem em destaque: pexels.com 

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