Em um episódio da série Conversando Sobre Espiritismo, transmitido pelos canais digitais da Associação Espírita Fé e Caridade, o expositor Vilson Matos nos trouxe o tema convivência e relações.

Por vezes consideramos nossas relações como difíceis, ou pouco fáceis. Isso ocorre porque convivemos com pessoas que são muito diferentes de nós e que têm histórias muito diversas das nossas, desde o momento em que abrimos os olhos na presente encarnação mas também de experiências pretéritas do Espírito.

Cada um traz consigo uma história alicerçada segundo a necessidade de desenvolvimento enquanto espírito imortal, vencendo suas dificuldades, alcançando novas virtudes e isso não é fácil. Então como construir relações alicerçadas no amor, em meio à diversidade de pensamentos e atitudes? Vamos aprender com Jesus.

Jesus e convivência

Jesus teve um diálogo com Simão Pedro na noite de sua prisão, revelando que naquela madrugada este O negaria por três vezes. O diálogo é trazido pelo Espírito Humberto de Campos no livro Boa Nova, por meio da psicografia de Francisco Candido Xavier. Conta-nos Humberto de Campos que Simão Pedro ficou naquele momento assustado, pois Jesus era pra ele a grande referência de amigo, aquele em quem ele colocava todo o potencial de amor.

— Pedro, a tua inquietação se faz credora de novos ensinamentos. A experiência te ensinará melhores conclusões, porque, em verdade, te afirmo que esta noite o galo não cantará sem que me tenhas negado por três vezes.

— Julgais-me, então, um Espírito mau e endurecido a esse ponto? — Indagou o pescador, sentindo-se ofendido.

— Não, Pedro, — adiantou o Mestre, com doçura, — não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.

Pedro não quis acreditar nas afirmações do Messias (…).

— do livro Boa Nova.

Esta fala tem um grande significado porque Jesus não foi um teórico. Jesus sempre exemplificou, trouxe os seus ensinamentos através dos exemplos, da vivência prática das circunstâncias que aconteciam para nos mostrar que aquilo que lhe acontecia, poderia nos acontecer.

E se formos analisar a nossa existência, já passamos por algumas situações pelas quais Jesus também passou.

  • Quantas vezes depositamos a nossa esperança naquele que convive conosco, em nossos familiares, e determinado momento somos negados? 
  • Quantas de nossas expectativas não são atendidas? 
  • Já sentimos que merecíamos algo além daquela atitude?

A motivação do outro pode ser medo, insegurança, ou por vezes crueldade, que interpretamos como orgulho ou vaidade, mas que podem revelar a fragilidade de cada um de nós. A agressão daquele que convive conosco é por vezes a necessidade de defender-se ou agir assim por medo de ser atacado. Até porque talvez no passado o ente querido de nossa convivência pode ter sido atacado de maneira grave, difícil e dolorida.

Convivência e fragilidade

O orgulho do saber, o orgulho do colocar-se acima, o orgulho de mostrar-se superior, talvez seja uma necessidade de auto afirmação, de alguém que teve as suas capacidades duvidadas anteriormente. Pode ser um aspecto de auto defesa, de insegurança, de medo. Mas todos estes aspectos são da fragilidade do ser para consigo mesmo.

Porque não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.
— Apóstolo Paulo, em Romanos 7:19-20.

Por vezes, na necessidade do combate de nós para conosco mesmos, na vontade de acertar, de crescer, de desenvolver os potenciais do bem, da amorosidade em nós, ainda tombamos nas fragilidades do passado.

Purifiquemo-nos

De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.
— Paulo. (2 Timóteo, 2.21)

No livro Vinha de Luz, Emmanuel analisa esta passagem e coloca que purificar-se não pode dar-se no passado, mas também não pode dar-se no porvir.

O trabalho da purificação é um trabalho do aqui e do agora, mas não é um trabalho de mágica, de uma transformação utópica que se faça no abrir e fechar dos olhos, pois todos carregamos conosco, milênios e milênios de imperfeições.

O encontrar-se

Existe uma passagem do Evangelho em que Jesus nos fala das dificuldades do ser para consigo mesmo, das necessidades do ser que não consegue encontrar-se na vida, aquele que não consegue adaptar-se à existência, por mais que tenha tudo de bom que a vida possa lhe oferecer.

Na parábola do filho pródigo, ele tem todas as facilidades, todo carinho e não consegue encontrar-se. Em determinado momento toma da sua liberdade, que é sua maior riqueza e vai ao mundo para descobrir-se, para que possa encontrar-se, mas também não se encontra.

E chega a necessidade de voltar aos braços daquele que o ama verdadeiramente, seu pai. Quando retorna, o pai o abraça, o ama, o ampara. Nada questiona, apenas ampara. E quando o pai é questionado pelo irmão, sobre o porquê daquela ação, Jesus coloca na boca daquele pai uma palavra fundamental: “este meu filho estava perdido e foi encontrado”.

Muitas vezes a forma que a vida tem de mostrar àqueles que convivem conosco a encontrarem a si mesmos, é por meio do amor, do abraço, do aconchego que recebem daqueles que os amam, daqueles que depositam toda a confiança de entender que o amor jamais será negado. A existência que vivemos é de aprendizado, de trabalho, mas acima de tudo, é uma existência de transformação.

E neste papel de transformação do outro, que é o mesmo de nós mesmos, entendemos que ninguém consegue transformar-se sozinho. Muitas vezes aquele que nos nega, aquele que nos decepciona, não age assim desta forma por perversidade ou crueldade, mas simplesmente por fragilidade.

Convivência e compreensão

Um dia você aprende que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não sabe amar, contudo, o ama como pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
— do poema de Jorge Luis Borges, editado por Veronica A. Shoffstall.

Jesus nos mostra na parábola o filho pródigo, que não é uma parábola de um pai para com o filho, mas de alguém que ama e que entende o ser amado, de alguém que ama no amor incondicional e que é capaz de compreender as fragilidades, as dificuldades e as inadaptações daquele que conosco vive.

As nossas relações de família são relações também de crescimento, porque quando observamos famílias que nos são apresentadas como modelos, sem defeitos, sem problemas, são apenas estereótipos porque toda família traz em si os seus problemas visto que a convivência com o outro por si só é uma dificuldade.

É certo que existem famílias em que existe uma harmonia maior, um afeto que une mais e por vezes nos perguntamos o porquê de nossa família não ser assim, o porquê da nossa dificuldade de convivência. A espiritualidade nos diz algo muito interessante… família feliz é obra dos milênios. Família feliz é construção dos séculos. É uma construção que nos visa entender que antes de compreender o outro, precisamos compreender a nós mesmos, antes de vencer ao mal do outro, precisamos vencer o nosso mal.

Alimentar a alma

Assim que comeram , Jesus diz a Simão Pedro: Simão, {filho de} João , {tu} me amas mais do que a estes? {Ele} lhe diz: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. {Jesus} diz a ele: Alimenta os meus cordeiros.
Novamente, {ele} lhe diz pela segunda vez: Simão, {filho de} João, {tu} me amas? {Ele} lhe diz: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. {Jesus} diz a ele: Apascenta as minhas ovelhas.
{Jesus} diz a ele pela terceira vez: Simão, {filho de} João, {tu} me amas? Pedro entristeceu-se por lhe ter dito pela terceira vez “tu me amas?”, e lhe diz: Senhor, tu sabes todas {as coisas}, tu sabes que te amo. {Jesus} lhe diz: Alimenta as minhas ovelhas.
— João 21:15,16

A lição de Jesus é que amor verdadeiro é ter a capacidade de apascentar, de acolher, de alimentar com aquilo que seja necessário para o corpo físico, mas acima de tudo, para o espírito imortal.

Muitas vezes é na convivência conosco que aquele que foi colocado pela vida a conviver conosco, encontra a oportunidade de transformação, de renovação, crescimento e despertamento. Não devemos amar os defeitos que o outro tenha, mas amar aquele que tem o defeito.

Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?
— Apóstolo Paulo em 1 Coríntios 5:6.

Acompanhe a íntegra do episódio que inspirou esta publicação:

* Colaborou para esta publicação: Débora Hemkemeier.

** Imagem em destaque: Pexels.com.

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