Entre os povos civilizados, o progresso intelectual tem recebido, no correr dos últimos séculos, todos os incentivos. Mas como anda o progresso moral da Humanidade?

No Capítulo VIII de O Livro dos Espíritos, encontramos na Lei de Progresso, questão 780, a pergunta de Allan Kardec à espiritualidade: “O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?”. Ao que a espiritualidade responde: “Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.” E, em seguida:

780a. — Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?
“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”
780b. — Como é, nesse caso, que, muitas vezes, sucede serem os povos mais instruídos os mais pervertidos também?
“O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.”

Moralmente a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que se opera a melhoria do globo, sob o império das forças materiais, os homens a isso concorrem pelos esforços de sua inteligência: saneiam regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e a terra mais produtiva.

Esse duplo progresso se realiza de duas maneiras: uma lenta, gradual e insensível; outra por mudanças mais bruscas, em cada uma das quais se opera um movimento ascensional mais rápido, que marca, por caracteres distintos, os períodos progressivos da Humanidade. Esses movimentos, subordinados nos detalhes ao livre-arbítrio dos homens, são de certo modo fatais em seu conjunto, porque estão submetidos a leis, como os que se operam na germinação, no crescimento e na maturação das plantas, considerando-se que o objetivo da Humanidade é o progresso, não obstante a marcha retardatária de algumas individualidades. Eis por que o movimento progressivo algumas vezes é parcial, isto é, limitado a uma raça ou a uma nação, outras vezes geral. O progresso da Humanidade se efetua, pois, em virtude de uma lei. Ora, como todas as leis da Natureza são a obra eterna da sabedoria e da presciência divinas, tudo quanto seja efeito dessas leis é o resultado da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. — Revista espírita — Ano IX — Outubro de 1866. (Édition Française) Os tempos são chegados.

Providências para atender as necessidades mais imediatas da existência, da sobrevivência, do bem estar, fez com que o ser fosse aquinhoando através do tempo, o conhecimento, a criatividade, não ficando restrito aos instintos, mas descobrindo novas possibilidades.

Passaram ao longo do tempo de Nômades (caçadores e coletores), para Sedentários, fixos (chamados de agricultores). Surgem novos interesses, melhores qualidades de vida no planeta.

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Fonte da imagem: UNESP

O atual progresso alcançado pela Humanidade representa um esforço evolutivo de milênios. Da sensação à irritabilidade, da irritabilidade ao instinto, do instinto à inteligência e da inteligência ao discernimento, séculos e séculos correram incessantes. A evolução é fruto do tempo infinito.

Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos. — André Luiz em Evolução em Dois Mundos, no Capitulo VI, Evolução e Sexo.

O Espírito em sua jornada desenvolve-se dentro de uma didática “duas asas”: em uma desenvolve o progresso intelectual e na outra o progresso moral. De um lado a razão e do outro os sentimentos.

O progresso intelectual e o progresso moral raramente marcham juntos, mas o que o Espírito não consegue em dado tempo, alcança em outro, de modo que os dois progressos acabam por atingir o mesmo nível. Eis por que se veem muitas vezes homens inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente, e vice-versa.

785. Quais os maiores obstáculos ao progresso moral? O orgulho e o egoísmo. À primeira vista, parece mesmo que o progresso intelectual reduplica a atividade de vícios, desenvolvendo a ambição e o gosto das riquezas, que, a seu turno, incitam o homem a empreender pesquisas que lhe esclarecem o Espírito. Assim é que tudo se prende, no mundo moral, como no mundo físico, e que do próprio mal pode nascer o bem. Curta, porém, é a duração desse estado de coisas, que mudará à proporção que o homem compreender melhor que, além da que o gozo dos bens terrenos proporciona, uma felicidade existe maior e infinitamente mais duradoura. — Allan Kardec: O Livro dos Espíritos.

Outro ponto importante, merecedor de destaque, é que o progresso, moral ou intelectual, é sempre cumulativo. De pequenina experiência em pequenina experiência, infinitamente repetidas, alarga-se-nos o poder da mente e sublimam-se-nos as manifestações da alma que, no escoar das eras imensuráveis, cresce no conhecimento e aprimora-se na virtude, estruturando, pacientemente, no seio do espaço e do tempo, o veículo glorioso com que escalaremos, um dia, os impérios deslumbrantes da Beleza Imortal.

O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: — A cada um segundo as suas obras. — O Céu e o Inferno. Cap. III (O Céu), item 7.

É importante considerar também que o Espírito progride igualmente na erraticidade (estado espiritual, em que os espíritos desencarnados passam durante o espaço entre uma encarnação e outra), adquirindo conhecimentos especiais que não poderia obter na Terra como encarnado. O estado corporal e o espiritual constituem a fonte de dois gêneros de progresso, pelos quais o Espírito tem de passar alternadamente, nas existências peculiares de cada um dos dois mundos.

Da obra Nascer e Renascer, de Emmanuel pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, temos um poema que inspira a reflexão sobre nosso progresso:

Contemplando o bem
Através de mil formas, somos hoje, qual ontem, viajores do tempo em trânsito da sombra para a luz.
Milhares de berços e túmulos assinalam a nossa marcha nos carreiros evolutivos e, se a névoa do passado ainda nos entenebrece a visão, na atualidade, já se nos faz possível prever, com Jesus, a alvorada renovadora.
Ontem, reduzimos o devedor à condição de alimária doméstica.
Hoje, dispomos de códigos que nos facultam a solução dos próprios compromissos perante a lei.
Ontem, fazíamos do oceano centro vivo das mais deploráveis operações de pirataria e rapinagem.
Hoje, fizemos do mar abençoado caminho de progresso e fraternidade.
Ontem, convertíamos a mulher, nossa mãe e nossa irmã, em silenciosa besta de carga, com tratamento familiar inferior àquele dispensado comumente aos cavalos.
Hoje, procuramos destacar-lhe a grandeza, conduzindo-a ao mais alto nível da cultura e da educação.
Ontem, relegávamos os enfermos difíceis aos vales escuros de abandono e desespero.
Hoje, aperfeiçoamos a experiência social, convocando-os ao nosso convívio para que a ciência e a caridade lhes assegurem a defesa ante as ameaças da morte.
Ontem, escravizávamos nossos próprios irmãos em espetáculos deprimentes de penúria moral, nos mercados de vida humana.
Hoje, consolidamos o direito do homem de quase todas as latitudes, no acesso ao trabalho digno e na conquista da própria emancipação.
Em verdade, ainda temos hoje as demonstrações da guerra, nos atritos periódicos das nações, e os hábitos infelizes, quais sejam o lenocínio e a indústria do entorpecente; no entanto, o Cristo que nos inspira o avanço espiritual, guiando-nos a jornada para a justiça, dar-nos-á braço forte para que o amanhã surja mais claro, assegurando-nos a vitória do amor e do respeito uns pelos outros.
Eis porque duvidar do bem seria desacreditar a nós mesmos, em derrocada injustificável, não só porque estamos a caminho do próprio burilamento, como também porque, se é inegável que Jesus começou a construir entre nós o Reino de Deus, não é menos certo que a sua Obra Divina ainda não terminou.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

Fontes consultadas:

  • Apostila do ESDE — Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita — Programa Fundamental (FEB). Módulo XI — Lei do Progresso- Roteiro 1 – Progresso intelectual e progresso moral.
  • Livro: Evolução em Dois Mundos, André Luiz – Francisco Cândido Xavier. Capítulo VI, Evolução e Sexo.
  • Revista espírita — Ano IX — Outubro de 1866. (Édition Française) Os tempos são chegados.
  • Livro: Nascer e renascer — Contemplando o bem – Emmanuel – Francisco Cândido Xavier.
  • Imagem de capa: @ryanclarkvisuals.

*Colaborou para esta publicação: Marli Giarola Fragoso.

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