Estamos em 2021, em meio a uma das mais impactantes pandemias da história da Terra, que passa por um período conhecido como transição planetária. Os dramas individuais, íntimos e também os coletivos encontram-se exponenciados. Haverá, nesse contexto, motivo para alegria?

Encontramos muitas menções à alegria no Evangelho, entre elas, esta pelo apóstolo Paulo:

Alegrem-se sempre.
Orem continuamente.
Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.
— Tessalonicenses 5:16-18.

Esta carta teria sido a primeira de Paulo (o Novo Testamento é composto ao todo por 14 cartas de Paulo) e foi dirigida aos cristãos da cidade de Tessalônica, na época pertencente a província da Macedônia no Império Romano. No livro Paulo e Estevão o benfeitor Emmanuel, por intermédio da psicografia de Francisco Candido Xavier, traz os bastidores da redação das cartas de Paulo e apresenta o apóstolo em momento crítico, sob tormentas de preocupações. Ainda assim, inquirido pelos companheiros de Tessalônica que difundiam as ideias da Boa Nova de Jesus naquela cidade, Paulo encontra recurso em si mesmo para convidar a comunidade cristã nascente a enfrentar as dificuldades com alegria.

O apóstolo nos recomenda alegria sempre. Não às vezes, nem apenas quando estivermos satisfeitos com nossa condição material, ou quando estivermos com saúde perfeita, ou quando todos os familiares estiverem encaminhados moralmente… mas sempre.

A importância da alegria

O convite do apóstolo Paulo é explicado pelo próprio benfeitor Emmanuel nos livros Fonte Viva e Palavras de VIda Eterna.

No primeiro, a mensagem nos faz refletir sobre os perigos de focarmos em destruição quando o que ocorre diante de nós é transformação. Alegria e esperança aparecem como caminhos à evolução. Emmanuel inicia trazendo um elemento chave para a interpretação do convite de Paulo:

O texto evangélico não nos exorta ao júbilo somente nos dias em que nos sintamos pessoalmente felizes.

Podemos pensar que para ter alegria precisamos de condições ideais de vida, ao menos a ausência de preocupações ou sentimentos contrários. Mas Emmanuel na abertura da mensagem já esclarece: a alegria não é um elemento externo a nós. Não é uma dádiva concedida a escolhidos, nem mesmo a quem tenha alcançado condições materiais ou espirituais para tal. A alegria é combustível íntimo de fonte auto-renovável que somos convidados a produzir independente de circunstâncias exteriores a nós.

Emmanuel segue:

Nada existe no mundo que não possa transformar-se em respeitável motivo de trabalho, alegria e santificação.
E a própria Natureza, cada dia, exibe expressivos ensinamentos nesse particular.
Depois da tempestade que arranca raízes, mutila árvores, destrói ninhos e enlameia estradas, a sementeira reaparece, o tronco deita vergônteas novas, as aves refazem os lares suspensos e o caminho se coroa de sol.
Somente o homem, herói da inteligência, guarda consigo a carantonha do pessimismo, por tempo indeterminado, qual se fora gênio irado e desiludido, interessado em destruir o que lhe não pertence.
Ausência continuada de esperanças e de alegria na alma significa evolução deficitária.
Fonte Viva (mensagem 102, Regozijemo­-nos sempre)

A alegria, portanto, aparece como sentimento que pode partir de qualquer ocorrência, mediante a gratidão e a forma de encarar as experiências terrenas. Emmanuel cita exemplos da Natureza, que por sua vez demonstra a Lei Divina, para nos lembrar da resiliência e capacidade de renovação que todos nós temos e devemos acessar nas horas de crise. Mas tal capacidade exige ação. Na Natureza, o reaparecimento da sementeira, o surgimento de novos ramos e o refazimento de ninhos após a tempestade exigem movimento por parte dos respectivos agentes, sejam vegetais ou animais. Emmanuel nos provoca a repensar nossas respostas às crises que passamos, e que muitas vezes são carregadas de pessimismo ou revolta.

Em outra mensagem sobre essa passagem do evangelho, Emmanuel volta a trazer os perigos do pessimismo e a necessidade de buscarmos uma resposta mais saudável aos altos e baixos que são comuns à experiência terrestre.

Ainda mesmo que o mal te golpeie transitoriamente o coração, recorda os bens que te compõem a riqueza da saúde e da esperança, do trabalho e do amor, e rejubila-te, buscando a frente. . . Tédio é deserção. Pessimismo é veneno. Encara os obstáculos de ânimo firme e estampa o otimismo em tua alma para que não fujas aos teus próprios compromissos perante a vida. Serenidade em nós é segurança nos outros. O sorriso de paz é arco-íris no céu de teu semblante. “Regozijai-vos sempre” – diz-nos o apóstolo Paulo. E acrescentamos : – Rejubilemos-nos em tudo com a Vontade de Deus, porque a Vontade de Deus significa Bondade Eterna.
— Palavras de Vida Eterna (capítulo 50, Confiemos Alegremente).

O mesmo convite do apóstolo Paulo à alegria é a resposta do mensageiro do alto Asclépios a uma pergunta do instrutor Cornélio, conforme relato de André Luiz no livro Obreiros da Vida Eterna. Encontramos no capítulo 3 desta obra, André Luiz e seu novo instrutor Jerônimo, junto de alguns Espíritos amigos, em missão para ajudar entidades sofredoras no Umbral. Enquanto se preparam para a missão, com a ajuda do instrutor Cornélio, recebem a visita de Asclépios, habitante de comunidades redimidas do Plano dos imortais, nas regiões mais elevadas da zona espiritual da Terra.

Cornélio inquiriu de Asclépios, como se fora mero aprendiz: — Que fazer para conservar alegria no trabalho, perseverança no bem, devotamento à verdade?
O mensageiro contemplou-o, num sorriso de aprovação e simpatia, identificando-lhe o ato de amor fraternal, e descerrou novo pergaminho, em que se lia o versículo dezesseis do capítulo cinco da primeira carta de Paulo aos tessalonicenses: — “Regozijai-vos sempre. ” Em seguida, falou, jovial: — A confiança no Poder Divino é a base do júbilo cristão, que jamais deveremos perder.
— Obreiros da Vida Eterna (capítulo 3) – grifo nosso.

Temos, portanto, nos textos de Emmanuel e também na lição de Asclépios apresentada por André Luiz dois elementos associados à presença da alegria: uma resposta íntima e ativa às experiências da vida e a fé em Deus, na certeza de que todas as situações — mesmo as mais desafiadoras — são lições que Deus nos oferece em sua infinita bondade para que a nosso turno recolhamos bênçãos de amor e sabedoria.

E por que a melancolia se faz presente?

Nós seres encarnados somos tão sensíveis que por vezes basta acordar uma manhã com músculos doloridos para que esqueçamos da alegria pelo dia inteiro. Vivemos em meio a preocupações e deixamos o que é simples passar despercebido: o céu azul, o canto dos pássaros, os raios de sol refletidos na janela formando arco-íris coloridos, o sorriso de uma criança.

Segundo François de Genéve em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a melancolia, essa tristeza leve que por vezes invade nossos corações, ocorre por frustrações de caráter espiritual que levam ao desânimo e à apatia. E deve sempre ser combatida.

Pensai que tendes a cumprir, durante vossa prova na Terra, uma missão de que já não podeis duvidar, seja pelo devotamento à família, seja no cumprimento dos diversos deveres que Deus vos confiou.
E se, no curso dessa prova, no cumprimento de vossa tarefa, virdes tombarem sobre vós os cuidados, as inquietações e os pesares, sede fortes e corajosos para os suportar.
— O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capitulo V, item 25.

Neste mesmo capítulo do evangelho, em itens anteriores, vemos que toda aflição tem uma causa: sejam causas atuais, eventos que ocorreram nesta vida e dos quais nos lembramos com pesar, ou causas anteriores — originados em vidas pretéritas e que na maior parte das vezes não lembramos, mas vivemos aqui as consequências.

As causas atuais das aflições em geral são consequência de decisões que tomamos ou de nossa forma de viver. Nascem de expectativas frustradas com negócios ou planos, ou com pessoas e relacionamentos. São originários de nosso próprio orgulho e ambição. Vem a partir do desejo ilimitado ou do foco excessivo na matéria e no momento presente. Independente da razão, importante sabermos que a cada dia temos uma oportunidade de recomeçar, corrigir erros e caminhos. Perdoar e amar mais. Você localiza em sua vida algum motivo para melancolia mediante situações que dependem de você alterar? Essa é a hora em que podemos ir adiante e usar as dificuldades como lições para de fato alterar nossa conduta.

Já nas causas anteriores das aflições moram aqueles motivos que podem ser confundidos com fatalidade… A perda de entes queridos, doenças congênitas, acidentes, dificuldades materiais extremas e tantas outras situações que não poderíamos evitar. Nesses casos o evangelho nos recomenda lembrar da multiplicidade das existências e da Justiça Divina. Somos seres imortais. Deus é bom e justo, sempre. Se algo nos acontece e não temos explicação, nos resta agradecer e aprender com a lição. Pois por mais que não possamos explicar, sabemos que se trata de uma prova, expiação ou mesmo um teste para nossa fé. Afinal, Deus não permitiria qualquer ocorrência que não partisse de Seu amor por nós, que fosse resultar em algo diferente de aprendizado e da evolução de Seus filhos. Devemos, portanto, nos arrepender, expiar e reparar.

Alegria na visão espírita

Em momentos de dor e incerteza, o sofrimento e a revolta não são as respostas mais adequadas. Reajamos com gratidão pela prova e alegria para seguir adiante, na construção do mundo que queremos habitar, interna e externamente.

Na pergunta 921 do Livro dos Espíritos, Kardec questiona a espiritualidade a esse respeito:

921. Concebe-se que o homem será feliz na Terra, quando a Humanidade estiver transformada. Mas, enquanto isso se não verifica, poderá conseguir uma felicidade relativa?
“O homem é quase sempre o obreiro da sua própria infelicidade. Praticando a lei de Deus, a muitos males se forrará e proporcionará a si mesmo felicidade tão grande quanto o comporte a sua existência grosseira.”
— O Livro dos Espíritos.

Nesse contexto, vale a pena refletirmos:

  • O que traz hoje, alegria para sua vida? Alegria da alma, alegria duradoura, alegria de construção imperecível?

A partir dessa lista, cerquemo-nos das atividades que nela aparecem. Da convivência com pessoas a que esta lista nos remete. Principalmente se nela incluirmos trabalhos na seara do bem, na ação por um mundo melhor.

Caso a lista seja muito curtinha e escassa, vale atendermos o convite feito por Patricia Saraiva Carvalho Mendes na Revista Reformador de fevereiro de 2021, para “trocarmos a lente” através das quais vemos o mundo.

A lente míope do sofrimento e da amargura denota dificuldade em divisar dias melhores que certamente virão, exigindo do observador o esforço para ampliar sua visão e perceber que, nascendo e renascendo, por muitas vidas, em diferentes corpos, o ser espiritual, num continuum, semeia e ceifa, e, nesse natural processo, ladeando as tempestades que nos invadem a vida, a Misericórdia Divina permite também a bonança, que abre sempre a possibilidade de novas semeaduras. (…) Chorar mas nunca descrer: na crisálida sofrida evolve a suave borboleta, a qual, no compasso das horas, ganha a amplidão do céu, rica em beleza e harmonia. Que nos encoraje a todos saber que, a breve tempo, voltará a florir em nossos corações, a primavera, o prenúncio de Era Nova!
— Revista Reformador, fevereiro de 2021. “Quando a primavera voltar a florir”.

Acompanhe na íntegra a palestra que inspirou esta publicação:

Referências:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2 ed.Rio de Janeiro: FEB, 2008.

XAVIER, Francisco Cândido. “Fonte Viva”. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1956.

XAVIER, Francisco Cândido. “Palavras de Vida Eterna”. Pelo Espírito Emmanuel. 17a ed. Uberaba – MG – CEC. 1992.

XAVIER, Francisco Cândido. “Obreiros da vida eterna.” Pelo Espírito André Luiz. 31. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

Crédito da imagem: Anna Shvets do Pexels.

Categorias: Notícias

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