A “parábola dos dois devedores” foi tema trazido pela trabalhadora espírita Angela Bueno, em exposição realizada na Associação Espírita Fé e Caridade. Na ocasião, a irmã nos ajudou a compreender melhor o contexto e significado dessa parábola.

A Parábola dos Dois Devedores

Primeiramente, vamos à narrativa:

Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele.
E entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa.

Havia na cidade uma mulher que era pecadora, e esta, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo–se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés, e ungia-os com perfume.

Ao ver isto, o fariseu que o convidara, dizia consigo: se este homem fosse profeta; saberia quem é que o toca e que sorte de mulher é, pois é uma pecadora.

Então Jesus disse ao fariseu: “Simão, tenho uma coisa para te dizer”.
Ele respondeu: “Dize-a, Mestre”.

“Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários, e o outro cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou a dívida a ambos.
Qual deles, portanto, o amará mais?”

Respondeu Simão: “Suponho que aquele a quem mais perdoou”.
Replicou-lhe Jesus: “Julgaste bem”.

E, virando-se para a mulher, disse a Simão:
“Vês esta mulher?
Entrei na tua casa e não me destes água para os pés, mas ela regou-os com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos.
Não me deste ósculo; ela, porém, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés.
Não ungiste a minha cabeça com óleo, mas ela, com perfume, ungiu os meus pés”.

Por isso te digo: “Perdoados lhe são os seus pecados, que são muitos, porque ela muito amou.
Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama”.
E disse à mulher: “Perdoados são os teus pecados”.

Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer consigo mesmos: Quem é este que até perdoa pecados?
Mas Jesus disse à mulher: “A tua fé te salvou; vai-te em paz”.
— Lucas, Capítulo VII, versículos 36-50.

Esta é uma parábola singela, mas de significado grandioso, como tudo que foi dito e feito por Jesus.

A fim de buscar o significado mais profundo, além do que já fica claro na conduta de Jesus, descrita por Lucas no seu Evangelho, podemos, com base nos dados da literatura espírita, e nos conhecimentos descritos para os costumes da época, tentar enxergar a cena toda “nas suas entrelinhas”.

Contexto

Uma breve contextualização para nos ajudar a visualizar a cena melhor:

  • Local do evento: Tudo leva a crer que se trata da cidade de Naim (cidade de origem romana, hoje, ao Norte de Israel, onde vivem palestinos). Já que, no mesmo capítulo 7, Lucas descreve que Jesus “retira da morte” o filho da viúva de Naim.
  • Refeição na presença de uma autoridade: além dos convidados que sentavam-se a mesa, havia sempre muitos outros populares, não convidados, homens, mulheres, que ficavam ao lado de fora do ambiente, mas podiam observar quem vinha, o que comiam, etc., e no final recebiam o que sobrava da refeição.
  • Recepção dos convidados: nos bons costumes da época, os convidados deveriam ser recebidos pelos servos com a lavagem dos pés, os quais apontavam-lhes o lugar na mesa; e pelo senhor da casa com ósculo e unguento.
  • Mesa da época: um móvel baixo, onde os servos colocavam os alimentos e bebidas. As pessoas sentavam-se ao redor desta mesa, em almofadas, no chão, de modo a apoiar-se na mesa e deixar livre a mão direita, para comer. Não havia louças nem talheres, comiam com as mãos, como ainda é hábito entre os palestinos hoje em dia.

O Fariseu

Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. E entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa.
— Lc 7:36

O primeiro personagem que aparece junto a Jesus é o fariseu. Mas quem é o fariseu?

  • Fariseu: um judeu que levava muito a sério as formalidades estabelecidas para os costumes da época.

Sobre os fariseus, esclarece Kardec, no livro O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Servis observadores das práticas exteriores do culto e das cerimônias; […] inimigos dos inovadores, […] ocultavam costumes dissolutos, muito orgulho e, acima de tudo, excessiva ânsia de dominação.
[…] Aliaram-se aos sacerdotes para instigar o povo contra Jesus.
— O Evangelho segundo o espiritismo, introdução.

Os fariseus discriminavam e consideravam como de menos valor aqueles que não cumpriam as formalidades.

Embora o fariseu discriminasse a mulher reconhecida como pecadora, o mesmo não cumpriu com a formalidade para com o convidado, Jesus. Por isso, a mulher, que já havia sido tocada pelas palavras do Mestre, quis mostrar esse ato de respeito.

A mulher pecadora

E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento;
— Lc 7:37

  • Mulher pecadora: Lucas não menciona quem ela era.

Nestas ocasiões, em geral, haviam muitas mulheres. Ficavam com as crianças e sempre separadas dos homens, em outro ambiente da casa de onde ocorria a reunião.

Alguns autores, como Caibar Schutell (1928) e Humberto de Campos (1941), dizem que a mulher que se aproximou de Jesus, e dele recebeu atenção, se tratou de Maria de Magdala.

De qualquer forma, esta mulher soube que Jesus participaria da refeição naquele local, e para lá se dirigiu, levando com ela um frasco de alabastro contendo unguento.

O alabastro é derivado do minério de cálcio, que é usado para fazer frascos de ornamentação e para conter perfumes. É muito frágil.

O unguento contido no frasco de alabastro trata-se de um perfume.

Tanto o frasco, como o perfume, são muito caros. Alguns autores dizem que o valor deste frasco de perfume era de 300 denários. Sendo um denário o valor então pago por um dia de trabalho.

Também, segundo os relatos, era hábito na região que as mulheres levassem consigo tal frasco com perfume, preso ao pescoço, sob as roupas.

As prostitutas o levavam igualmente no pescoço, mas à mostra, e podiam usar o perfume, até mesmo na presença dos possíveis clientes, em público, o que era muito agressivo aos bons costumes.

E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento.
— Lc 7:38

A “mulher pecadora”, possivelmente Maria de Magdala, estando ali entre os não convidados, mesmo sendo mulher, “pecadora”e não tendo sido convidada, adentra o ambiente da reunião. E coloca-se aos pés de Jesus, chorando…muito.

Isto certamente provocou espanto geral, pois naquele ambiente não era permitida a presença de mulheres. Muito menos das consideradas pecadoras.

Lavando os pés com lágrimas

Chorava muito, pois, como diz Lucas, ela regava-lhe os pés com as lágrimas!

Podemos perguntar: Porque ela chorava tanto?

Seria porque teria notado como Jesus tinha sido mal recebido pelo anfitrião – que não recepcionou-o conforme os bons costumes da época? E sentiu-se comovida com tal falta de consideração com Aquele a quem ela, sendo Maria de Magdala, já amava tanto, pois estava já completamente envolvida por sua figura e seus ensinamentos?

Secando os pés com seus cabelos

Uma prostituta adentrar um ambiente na residência de um fariseu, chorando e tocando um homem, além de secar suas lágrimas caídas em Seus pés, com os cabelos soltos, a mostra (e que deveriam estar presos, sob um manto!), foi outro motivo de escândalo revoltante, em especial por verem a cena e observarem que Jesus aceitava tudo aquilo, sem reagir.

Uma mulher tocar um homem, mesmo sendo seus pés, em público era um escândalo. E ainda por cima passar-lhe o perfume todo do frasco, em público, fazendo que o aroma tomasse conta do ambiente. Isso tornou a ocasião um momento, no mínimo, desconcertante para todos os convidados.

Reação do fariseu

Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora.
— Lc 7:39

Então, perante a circunstância, tão fora dos padrões sociais, era isto o que o fariseu pensava a respeito de Jesus.

Note-se que Lucas diz que o fariseu “falava consigo” sobre o que estava acontecendo, não disse Lucas que o fariseu gritou com a mulher ou com Jesus, ou cometeu qualquer descortesia explícita. Apenas pensava, ou no máximo balbuciava seu espanto perante a cena inesperada e inusitada.

E respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre.
— Lc 7:40

Mesmo que Simão, o fariseu, não tivesse manifestado pública e explicitamente a sua opinião sobre o ocorrido, Jesus, também naquela situação, tinha um ensinamento para todos os presentes, em forma de parábola.

Parábola dos dois devedores

Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários, e outro cinqüenta.
E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?
E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem.

E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça.
Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés.
Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento.
Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama.
— Lc 7:41-47.

Acreditamos que o significado imediato do ensinamento de Jesus nesta parábola é claro, não necessitando aprofundar elucidações. Aquele que devia mais, ficou, obviamente, muito mais satisfeito com o perdão recebido. O que devia menos, sem dúvidas, deve também ter ficado muito tranquilo depois de perdoado, pois receber o perdão de uma dívida, seja qual for ela, traz tranquilidade ao nosso coração.

Mas, aos olhos do fariseu, e quiçá de outros presentes na reunião, O Mestre foi intrigante, e como Ele sabia o que estava ocorrendo no ambiente, com a situação criada pela presença e atitudes da mulher “pecadora” perante Ele, não deixou passar em branco a ocasião de estender seu ensinamento de amor a todos os presentes.

E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados.
E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados?
E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.
— Lc 7:48-50

O banquete dos publicanos

“E os fariseus, vendo isto, disseram aos seus discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? ” — (MATEUS, capítulo 9, versículo 11)

De maneira geral, a comunidade cristã, em seus diversos setores, ainda não percebeu toda a significação do banquete do Mestre, entre publicanos e pecadores.

Não só a última ceia com os discípulos mais íntimos se revestiu de singular importância. Nessa reunião de Jerusalém, ocorrida na Páscoa, revela-nos Jesus o caráter sublime de suas relações com os amigos de apostolado. Trata-se de ágape íntimo e familiar, solenizando despedida afetuosa e divina lição ao mesmo tempo.

No entanto, é necessário recordar que o Mestre atendia a esse círculo em derradeiro lugar, porqüanto já se havia banqueteado carinhosamente com os publicanos e pecadores. Partilhava a ceia com os discípulos, num dia de alta vibração religiosa, mas comungara o júbilo daqueles que viviam a distância da fé, reunindo-os, generoso, e conferindo-lhes os mesmos bens nascidos de seu amor.

O banquete dos publicanos tem especial significado na história do Cristianismo. Demonstra que o Senhor abraça a todos os que desejem a excelência de sua alimentação espiritual nos trabalhos de sua vinha, e que não só nas ocasiões de fé permanece presente entre os que o amam; em qualquer tempo e situação, está pronto a atender as almas que o buscam.

O banquete dos pecadores foi oferecido antes da ceia aos discípulos. E não nos esqueçamos de que a mesa divina prossegue em sublime serviço.
Resta aos comensais o aproveitamento da concessão.
Caminho Verdade e Vida, Emmanuel e F. C. Xavier, 1948. 137

Assista agora a palestra que inspirou esta publicação:

REFERÊNCIAS:

  • CAMPOS, H. e XAVIER F. C., 1941. Boa Nova. Cap. 20, p. 161-162. Ed. FEB.
  • KARDEC, A., 1863. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, item III.
  • SCHUTEL, C., 1928. Parábolas e Ensinos de Jesus. p. 272- 279. Ed. O Clarim.

Sugestão de leitura complementar:

  • SAULNIER, C. E ROLLAND, B. 1983 – A Palestina no tempo de
  • Jesus. Cadernos Bíblicos. Ed. Paulus.

*Colaborou para esta publicação: Angela Bueno.
**Imagem em destaque: pexels.com

Categorias: Notícias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *